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TIBIRIÇA E AS PACOVAS LITERÁRIAS

Gosto de pacovas! Foi o professor Ézio Grassi Peluso, personagem histórico do bairro paulistano de Pinheiros, quem me apresentou o geólogo e lexicógrafo Luiz Caldas Tibiriçá (1913 – 2006), considerado um dos maiores especialistas em línguas indígenas da América do Sul. Tibiriçá e Ézio, nos anos 1980, frequentaram, quase que diariamente, a Scortecci Editora, no endereço da Galeria Pinheiros, Rua Teodoro Sampaio, 1704, loja 13, na capital paulista. Ficamos amigos. O pouco que conheço de tupi-guarani devo a ele. Em dado momento da vida, Tibiriçá pirou da cabeça e tentou o suicídio. Para se curar – foi o que ele me disse – largou tudo e foi morar em uma vila de pescadores na cidade de Cananéia, litoral paulista. Ficou por lá um par de anos. “Fui me curar da civilização”, disse-me, quando voltou. Certa vez – no final dos anos 1980 – levei-o para um evento literário – lançamento de uma antologia poética – na cidade de Piracicaba, interior de São Paulo. Na estrada, pediu-me para comprar pacovas. “Um cacho, por favor!” Foi o que fiz. Encostei o carro na primeira banca de frutas e fiz a compra. Coloquei o cacho de pacovas no banco traseiro do Fiat 147. “Quer uma pacova?”, ofereceu-me. “Não, obrigado”, respondi. Durante a viagem – aproximadamente 158 km – de São Paulo até a cidade de Piracicaba – Tibiriçá comeu 32 pacovas. Guardou as cascas num saco plástico. “Adubo para as minhas roseiras!”, explicou. Perguntei-lhe, então: “Tudo bem com você?”. “Sim, tudo. Eu gosto de pacovas!” “Estou vendo”, comentei. Justificou-se: “Durante os anos em que vivi com os índios Guarani, na cidade de Cananéia, comia pacovas o dia todo.”. Depois da barrigada, Tibiriçá reclinou o banco do passageiro do Fiat 147 e ali dormiu profundamente. Parecia feliz. Tibiriçá, desde muito cedo, tomou contato com os índios Guarani-Nhandeva, de Itanhaém, no litoral paulista, e, aos 21 anos de idade, com tribos do Pantanal: Guaicuru, Andauê, Chiriguano, Terena e outras. Estudou cerca de 200 dialetos indígenas e elaborou 83 monografias, das quais foram editadas apenas quatro. É autor de sete obras de referência: “Dicionário Tupi-Português”; “Dicionário Guarani-Português”; “Dicionário de Topônimos Brasileiros de Origem Tupi”; “Dicionário da Mitologia Universal”; “Vocabulário Tupi Comparado”; “Dicionário de Termos Asiáticos e Ameríndios”; “Estudos comparativos do japonês com línguas ameríndias: evidências de contatos pré-colombianos”. Foi Diretor do Museu Particular de Jundiaí “Francisco de Matheo” e membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. No retorno da viagem à Piracicaba, contou-me sobre sua depressão e como conseguiu se curar da doença da civilização. Perguntei-lhe: “Você ainda pensa em suicídio?”. “No momento, não!”, respondeu-me. Olhou-me nos olhos e sorriu. Parecia feliz e imortal. Viveu até os 93 anos de idade – segundo ele – graças às pacovas. O que ficou no tempo, além da saudade, foram versos de um poema: “Até Piracicaba: um cacho com 12 pencas. Num Fiat 147, uma penca com 36 pacovas! Cananéia: peixes, farinha e pacovas. Adubo literário: roseiras no jardim!”.

João Scortecci


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OSSOS DOS PÉS E O GOL DE BICUDA

 Fui goleiro de um time infantil chamado “Coqueluche”. Numa final de torneio no campo de grama do Círculo Militar, tomei um frango e perdemos o campeonato. Isso na cidade de Fortaleza dos anos 1960. O time tinha um técnico: Lúcio, talvez. Ele dizia para nós, jogadores: “O pé tem 26 ossos! Na hora de chutar usem o osso certo! Osso para bater pênalti, osso para cobrar escanteio, osso para cruzar a bola, osso para passar a bola, osso para dominar a pelota, osso para fazer gol de placa e – o mais importante dos ossos do pé: osso para fazer gol de bicuda!”. Ronaldo Fenômeno, Romário, César Maluco, Pelé, Ronaldinho Gaúcho e muitos outros fizeram gols de bico. Gols inesquecíveis! Para fazer gol de bicuda, usam-se as falanges e os metatarsos! Risos. No ano de 2010, já morando na cidade de São Paulo, conheci – no portão da garagem da Scortecci Editora – o Francisco, ex-jogador de futebol. Foi ponta-esquerda de um time do interior paulista. Ferroviária? Talvez. Ele caminhava apoiado numa bengala, com ajuda de uma cuidadora, e eu, começando o dia, entrava na garagem da editora. Cumprimentei-o: “Bom dia!”. Ele respondeu, sorrindo: “Bom dia!”. Era também madrugador; fazia sua caminhada diária, na mesma hora em que eu chegava à editora. Ficamos amigos. Assunto principal: futebol. Um dia – do nada – perguntei-lhe, puxando conversa: “Francisco, do que você mais tem saudade no futebol?”. Esperava mil respostas: dos gols, das finais, das brincadeiras na concentração, dos gritos da torcida, dos amigos da bola, do bicho gordo depois das vitórias, qualquer coisa parecida com isso. Francisco me olhou e respondeu: “Saudade das mãos do massagista que lavava e massageava os meus pés!”. Risos. Continuou: “Hoje, aos 75 anos, não consigo mais me abaixar para lavar os pés. Sinto falta, sinto dores. Esfrego um pé no outro e fica por isso mesmo.”. Hoje, aos 70 anos de idade, tenho a mesma dificuldade para lavar os pés. Não consigo mais me curvar o suficiente para massagear e lavar os meus pés. Uma tragédia! Falta de óleo nas juntas. Esfrego, então, um pé no outro. É o que faço. A lavagem dos pés é um rito cristão (João 13:1-17), em que Jesus lava os pés de seus discípulos na Última Ceia, simbolizando humildade, serviço abnegado e amor ao próximo. Exagerando: deveria ter um lava-pés em cada esquina! Francisco, o boleiro, ponta-esquerda, faleceu em 2021. Entre nós, ficou no ar o grito do gol de bicuda. Gol de craque: com os 26 ossos do pé.

João Scortecci

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ÉRAMOS FELIZES, E O AZAR NÃO EXISTIA!

Na infância era assim: “Tudo que não mata engorda!”. Funcionava, acho. Éramos felizes, e o azar não existia. Simples assim: pegar do chão, limpar com a mão, soprar forte e, depois, comer ligeiro. Não me lembro de quando tudo mudou, e essa prática passou a ser algo muito perigoso. “Menino, não pode comer o que cai no chão. Joga fora!” De uma hora pra outra – na infância dos anos 1960 – nasceu, então, o azar, a total falta de sorte, o “deu bobeira”. Atualmente – li sobre isso outro dia – o que de comer cair no chão precisa ser recolhido rapidamente, em até 3 segundos. Será? Fiz isso outro dia e sobrevivi! Era um pão francês com mortadela, queijo e manteiga Aviação. Pulou da minha mão! Peguei ligeiro – soprei com força – e comi feliz. Dudu – meu Fox – ajudou, lambendo o chão. Sorte a nossa! Lendo sobre o famoso peixe com batatas, vendido na Inglaterra, envolto em papel jornal, conhecido como “fish and chips” – peixe branco, bacalhau ou arinca, empanado e frito, servido com batatas fritas, sal e vinagre –, soube que esse prato foi inventado no final do século XIX, com o peixe embrulhado em folhas de jornal, servindo como isolante térmico e absorvente de gordura. Um tremendo sucesso. Depois, a partir da década de 1980, caiu em desgraça por questões de higiene e porque a tinta do jornal foi considerada de alta toxicidade pelo chumbo. Mudaram a tinha – hoje à base de óleo de soja – de baixa toxidade. Embora a imagem do jornal seja icônica, hoje em dia o peixe é embrulhado em papel impermeável à gordura ou servido em caixas de papelão. Confesso: perdeu a graça! A primeira loja “fish and chips”, a de Londres, foi do imigrante judeu Joseph Malin (1844 – 1926), no ano da graça de 1860. Malin, poeta, vegetariano e defensor da temperança – abstinência total do consumo de bebidas alcoólicas – comia, quase que diariamente, “peixe frito”, embrulhado em papel jornal e pasmem: viveu feliz até os 82 anos de idade. O “fish and chips” é considerado um dos pratos mais famosos e tradicionais do Reino Unido. No Ceará dos anos 1960, o peixe fresco era vendido nas ruas da cidade. O vendedor carregava os peixes numa vara com cordinhas de peixes nas extremidades. Cortava e limpava o pedido ali mesmo, no chão da calçada. Depois, embrulhava no papel jornal. Pronto! Do mesmo modo acontecia a venda de miúdos: fígado de boi, rabada, miolo, língua e tripa. Os vendedores carregavam tudo dentro de uma caixa de madeira na cabeça. É dessa época a minha paixão por pratos com tripa, miolo e rabo de boi. Éramos felizes, e o azar não existia. A vida, naquela época, era de baixa toxidade.

João Scortecci

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GIOVANNI, O AÇOGUEIRO CARCAMANO E O MERCANTIL SÃO JOSÉ

Deus é gracioso! Giovanni era dono de um pequeno açougue de carnes que ficava na rua de cima daquela onde morávamos, na cidade de Fortaleza/CE dos anos 1960. Giovanni falava pelos cotovelos: mexia as mãos e os braços. Só parava para coçar o nariz e alinhar os fios do seu imenso bigode à la Salvador Dali. Era de Nápoles, cidade da Itália, capital da Campânia. Mamãe Nilce anotava o pedido num pedaço de papel e recomendava: “Olho no carcamano! Ele mete a mão no peso e no contrapeso!” Quem tem mais de 60 anos e comprava carne em açougue de bairro, conhece a malandragem do contrapeso, comum, na época. Giovanni – rápido que só ele – jogava a carne na balança de dois pratos e juntava um pedaço generoso de sebo. Gritava: “Cos’altro! Cos’altro!”. E, mais ligeiro ainda, enrolava a carne em papel jornal. Quando mamãe Nilce recebia a carne, soltava fogo pelo nariz. Dizia, aos gritos: “Carcamano dos diabos!”. “Carcamano” é um termo pejorativo para designar italianos e seus descendentes, popularizado no início do século XX, associado a trapaceiros. “Questo è carca a mano!”. Mamãe Nilce era neta de italianos de Arezzo, Toscana, e, pelo que sei: meus avós não tinham simpatia alguma pelos napolitanos. Um dia – soltando fumaça pelo nariz – encarou, de frente, o simpático napolitano. Fui junto, de segurança, com a minha baladeira pendurada no pescoço e o bolso cheio de bilas, bolinhas de gude. Mamãe foi feroz. Giovanni ficou calado, coçando o bigode e cutucando o nariz. Olhou-me duas ou três vezes, enquanto eu esticava a baladeira no pescoço. Eu, sempre alerta, mirava com os olhos o balcão de vidro do açougue. Giovanni escutou tudo, pacientemente, até mamãe Nilce se acalmar e controlar o agito das mãos. “Tutta brava gente! Viva l’Italia!”. Giovanni – é do que me lembro – nunca mais colocou contrapeso no quilo de patinho, carne preferida da minha mãe. O patinho é um corte nobre, retirado da parte traseira, magro e macio, ideal para moer e fazer almôndegas. O segredo? Mãos delicadas e pouca força; se apertar além da conta, as almôndegas ficam secas e duras. O que descobri – mas nunca contei para a minha falecida mãe – o carcamano não colocava mais o dedo no nariz. Colocava – desde então – o dedo no prato de aço da novíssima balança eletrônica – recém comprada – onde o “Calca a mão”, calibrava o peso da engenhoca e dizia: “Essa não erra!”. É dessa época a inauguração do primeiro supermercado de Fortaleza, o Mercantil São José, no ano de 1962. Mamãe Nilce, então, trocou de mundo. Repetia feliz: “Aqui tem tudo!”. Pra mim sobrou o serviço pesado: empurrar o carrinho de compras. Um detalhe insignificante: naquela época os carrinhos eram enormes, pesados, de ferro, e as rodinhas faziam um barulho dos infernos. Ficaram – do amor de mãe – as almôndegas de patinho. “Tutta brava gente!”

João Scortecci

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O VELHO LEÃO DO CLUBE SÃO PAULO E O POETA WANDERLEY MIDEI

Conheci o jornalista e escritor Wanderley Midei (Francisco Wanderley Midei, 1943 – 2022) nos anos 1990. Publiquei pela Scortecci Editora três livros de sua autoria: “Folhas Corridas”, “Vendo a Vida” e “Avenida Central”. Midei era um sujeito inteligente, simples, bem-humorado e um contador de “causos”. Trabalhou nos jornais “O Estado de S. Paulo” e “Folha de S. Paulo”, na Imprensa Oficial do Estado, no SBT e na extinta TV Manchete. Na época da publicação do seu primeiro livro, “Folhas Corridas” (poesias, 1991), era o jornalista responsável pela comunicação social do Clube São Paulo (1960 – 2008), localizado na Av. Higienópolis, n. 18 – no encontro das ruas Dona Veridiana, Maria Antônia, Major Sertório, Itambé e Av. Higienópolis, no antigo palacete inaugurado em 1884, num terreno de mais de 3 mil metros, residência de D. Veridiana (Veridiana Valéria da Silva Prado, 1825 – 1910), filha de Antônio da Silva Prado, o Barão de Iguape. Hoje, no local, funciona a sede do Iate Clube de Santos. Visitei o palacete no ano de 1973, alcunhado “Clube do Leão”, quando eu era estudante do Mackenzie (1972 – 1982). Diziam que lá, em algum lugar do latifúndio, morava um leão. Folclore, para muitos. No meio de um papo sobre o Clube São Paulo – fundado pelo banqueiro Gastão Vidigal e também conhecido como “Clube dos Banqueiros” devido ao fato de ter em seu quadro associativo praticamente todos os banqueiros da época – o jornalista Wanderley Midei confirmou a veracidade da história do Leão. “Um velho leão!”, disse. Hoje, na volta do pedal, passei em frente ao local e resolvi parar para fotos. Tempo para beber água, esfriar os músculos das pernas, lembrar-me dos “causos” do poeta Wanderley Midei, dos dez anos de Mackenzie e do velho Leão, que, infelizmente, não conheci. Um detalhe, insignificante: morro de medo de leões, tigres, panteras e onças. Quando visitei o Coliseu de Roma – em 2008 – senti um frio na barriga e uma sensação estranha de medo, desespero e dor. Penso que vivi por lá e fui devorado por uma fera, algo assim. Não fui rei, senador e nem soldado romano. Dizem que a história de cristãos atirados aos leões no Coliseu é, em grande parte, um mito, uma imagem exagerada e pouco fundamentada em evidências históricas concretas. Desconfio! Mesmo assim, fico com a história do velho leão do Clube São Paulo.

João Scortecci

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DOENÇA DE POETA E OS HIPOCAMPOS DA LOUCURA

Gosto dos loucos. São sábios! Louco: aquele cujo comportamento ou raciocínio denota alterações patológicas das faculdades mentais. O poeta romano Juvenal (Décimo Júnio Juvenal, c. 55 e 60 – 127), autor de “Sátiras”, sofria de hipergrafia: tendência à escrita compulsiva e extensa, termo médico para descrever a “doença” da escrita. A doença é desencadeada pela epilepsia do lobo temporal e às vezes está associada à doença bipolar, na qual a mania se alterna com a depressão. O impulso para escrever tem origem no sistema límbico – conjunto de células cerebrais associadas à emoção – e transformado em ideias “editadas” pelos lobos temporais. Encontrei o poeta romano Juvenal lendo sobre “Sátiras”, fonte de uma penca de máximas filosóficas, algumas de arrancar os cabelos da razão. Exemplo: “E quem vai vigiar os vigias?”. Lendo sobre Juvenal, lembrei-me dos muitos escritores que conheço – ou conheci – que sofrem ou sofriam de hipergrafia literária. Bipolaridade de gênero! “João, o que faço: não paro mais de escrever?”. “Nada! Uma hora qualquer o lobo temporal entra em colapso e a cura acontece naturalmente. Pode acreditar! Quem duvidar recomendo a obra “História da Loucura na Idade Clássica" (“Histoire de la folie à l'âge classique”) (1961), do filósofo, historiador das ideias, teórico social, filólogo, crítico literário e professor francês Paul-Michel Foucault (1926 – 1984). Uma curiosidade: em 2026 comemora-se o centenário do seu nascimento. No tarot, a carta “o Louco” é a última do baralho – a de número 22 – mas também é considerada a carta “zero”, porque a partir dela tudo se renova: início e fim. Definição do arcano: impetuosidade, vontade de viver, entusiasmo temporário, integridade e otimismo. E significa: quebrar o ciclo, romper, e por princípio definir e apontar o caminho de novos horizontes. No Tarot, a carta “o Louco” pode ser considerada uma carta benéfica, ou não. Um coringa! Resumindo: desconhecia a existência do tal “sistema límbico”, conjunto de estruturas cerebrais interconectadas que processam emoções, comportamentos motivados e memória, responsável pela loucura ímpar dos poetas hipergráficos. Pergunta: “E quem vai vigiar os poetas?”. A poesia salva!

João Scortecci


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LÊ E DEPOIS DELETA!

Acordei cedo – uma hora antes do horário de sempre. Montei na bike e no pedal, fui até o Sambódromo do Anhembi. Gosto de ver os carros alegóricos de perto, sendo manobrados no imenso estacionamento que fica ao lado. Visitei o busto do cantor e compositor Geraldo Filme, no antigo Largo da Banana, hoje Viaduto Pacaembu. Depois voltei, exausto. Lendo artigo de 2011 na revista “Piauí”, encontrei: “A correspondência amorosa mais famosa do Brasil talvez seja aquela formada pelas cartas trocadas de 1822 a 1829 entre o Imperador D. Pedro I e sua amante, Domitila de Castro Canto e Mello, elevada por ele, em 1826, ao título de Marquesa de Santos. Infelizmente, das prováveis centenas de cartas escritas pela marquesa apenas um punhado foi conservado nos arquivos imperiais. Por sorte, quase todas as cartas do imperador foram guardadas pela marquesa, apesar dos pedidos de D. Pedro I para que as destruísse.” A sina até hoje continua, mesmo depois de 200 anos. Pedir para alguém "deletar" uma mensagem "perigosa" enviada na confiança, é algo difícil de acontecer. “Lê e depois deleta!”. Não funciona. Continuando a leitura da revista “Piauí”: “Consta que numa gaveta reservada da Biblioteca Nacional há outra carta para a Marquesa à qual o Imperador Pedro agregou também cabelos arrancados de uma parte íntima de seu corpo.” É possível. Não duvido. A matéria menciona, ainda, um conjunto de 36 cartas originais de D. Pedro I à Marquesa de Santos, encadernadas num livro, compradas na Europa de um descendente da marquesa por um embaixador brasileiro, na década de 1930. O volume foi encontrado há alguns anos escondido na gaveta de uma senhora de 93 anos recém-falecida. O livro encadernado com as cartas de Pedro para Domitila fora comprado da viúva do embaixador em 1958, por Adhemar de Barros, então Governador de São Paulo, que as desejava presentear à sua amante, Ana Gimol Capriglione (Ana Gimol Benchimol Capriglione, 1911 – 2005), pois Ademar achava sua história de amor semelhante à da célebre paixão imperial. Adhemar de Barros – cassado a mando do Marechal Castello Branco – morreu de infarto, na França, aos 67 anos de idade, em março de 1969, durante a ditadura militar no Brasil. O seu enterro já seria complicado, em razão da possibilidade de se transformar em ato público contra o regime militar, mas surgiu um segundo complicador. Tão logo seu corpo foi levado à casa em que morava na Rua Maranhão, no bairro de Higienópolis, na cidade de São Paulo, sua amante, Ana Gimol Capriglione, o "Doutor Rui", fazia questão de velá-lo até o fim, com o que não concordavam os filhos e sua mulher, Leonor Mendes de Barros. Coube à ex-deputada Ivete Vargas (1927 – 1984), sobrinha de Getúlio Vargas, entrar em cena para negociar o cerimonial fúnebre. Ficou assim: as viúvas – Leonor e Ana – dividiriam, então, o velório: "Dr. Rui", até o início da madrugada, e, em seguida, a família legalmente constituída. Deu certo. Foi a família oficial que acompanhou Adhemar, sem sobressaltos políticos, ao Cemitério da Consolação. A mansão de Adhemar de Barros da Rua Maranhão, em Higienópolis, não existe mais; foi demolida e no local foram construídos edifícios residenciais. “Lê e depois deleta!”

João Scortecci


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TROCANDO EM MIÚDOS: O NERUDA QUE LI

Trocando em Miúdos significa explicar algo de forma simples, clara, detalhada e minuciosa, traduzindo ideias complexas em palavras acessíveis. Foi o compositor Chico Buarque quem primeiro me falou do poeta Neruda: “Devolva o Neruda que você me tomou e nunca leu”. Isso nos anos 1980. O poeta, diplomata e político Pablo Neruda (Ricardo Eliécer Neftalí Reyes Basoalto, 1904 – 1973), nasceu em Parral, comuna da província de Linares, Região de Maule, no Chile. Ocupou posições diplomáticas e exerceu um mandato como Senador pelo Partido Comunista do Chile. Em 1948, com o banimento do comunismo no país e com ordem de captura contra si, fugiu e exilou-se na Argentina, retornando somente no ano de 1971, já laureado com o Prêmio Nobel de Literatura, no governo socialista do presidente Salvador Allende (Salvador Guillermo Allende Gossens, 1908 – 1973). Em 11 de setembro de 1973, Allende, foi cercado e deposto pelo General Augusto Pinochet, por meio de um golpe militar, com apoio do governo norte-americano. Salvador Allende ainda tentou resistir, mas sem sucesso. Acabou “encurralado” pelas tropas do Exército e veio a cometer suicídio no Palácio de La Moneda, sede do governo Chileno. O poeta Pablo Neruda morreu 12 dias após o golpe, aos 69 anos de idade, possivelmente envenenado, por ordem do ditador General Augusto Pinochet, quando o poeta foi hospitalizado para tratamento de um câncer da próstata, no dia 23 de setembro de 1973. Trocando em Miúdos: Neruda é o poeta das paixões e dos apaixonados. Dos filhos do amor! Escreveu, entre muitos outros livros: Vinte poemas de amor e uma canção desesperada. Escreveu também sobre a arte de fazer literatura: “É descrever o que se sente verdadeiramente, a cada instante da existência. Não acredito num sistema poético, numa organização poética. Irei mais longe: não creio nas escolas, nem no Simbolismo, nem no Realismo, nem no Surrealismo. Sou absolutamente desligado dos rótulos que se colocam nos produtos. Gosto dos produtos, não dos rótulos”. Confesso que vivi (Memórias, Difel Editora, 1978), foi o primeiro Neruda que li. Nunca o devolvi. A ditadura militar no Chile, entre 1973 e 1990, deixou mais de 3 mil mortos ou desaparecidos, torturou milhares de prisioneiros e forçou 200 mil chilenos ao exílio. Durante a ditadura de Pinochet publiquei pela Scortecci Editora, vários livros de autores chilenos, na época, exilados no Brasil.

João Scortecci


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BARSA: A DAMA DA LOMBADA VERMELHA

Alguém me perguntou: “Vocês, do Projeto Livros para Todos, aceitam doação de enciclopédias?”. Antes de responder “Não, infelizmente”, indaguei, curioso: “Qual enciclopédia?”. Resposta: “Barsa. Hoje, nenhuma biblioteca pública ou comunitária, aceita receber enciclopédias.”. Uma tristeza! A Barsa foi a enciclopédia que fez a cabeça da minha geração e de tantas outras, antes da chegada da Internet. A primeira edição de “Barsa” foi lançada no Brasil em março de 1964; e a última – com atualizações no título, número de verbetes e volumes –, foi publicada em 2014. Essa enciclopédia foi idealizada no ano de 1959, pela empresária e editora Dorita Barrett de Sá Putch (1914 –1973), herdeira da família Barrett, detentora dos direitos da “Encyclopædia Britannica” – da qual o seu pai era o editor-executivo. Barsa foi a primeira enciclopédia brasileira desenvolvida por um corpo editorial brasileiro formado, entre outros ilustres intelectuais, pelo jornalista e escritor Antônio Callado (editor-chefe), o enciclopedista Antônio Houaiss (1915 – 1999), o escritor Jorge Amado (1912 – 2001), o historiador e sociólogo Sérgio Buarque de Holanda (1902 – 1982), o poeta e escritor Ferreira Gullar (1930 – 2016), o sociólogo Gilberto Freyre (1900 – 1987), a escritora Rachel de Queiroz (1910 – 2003), o jornalista Otto Maria Carpeaux (1900 – 1978) e o arquiteto Oscar Niemeyer (1907 – 2012). Para o título do projeto, Dorita Barrett escolheu a junção de “Bar”, parte de seu sobrenome, e “Sá”, sobrenome do marido, o então diplomata Alfredo de Almeida Sá. Em 1964, quando a enciclopédia foi lançada – em 16 volumes e 130 mil verbetes, com 30% de conteúdo inédito, totalmente produzido no Brasil, e o restante traduzido de verbetes da “Britannica” –, as 45 mil coleções da primeira edição se esgotaram em oito meses. Em 1990, no auge das vendas, 120 mil coleções foram vendidas; em 2010, já nos tempos da Internet, foram vendidas apenas 8 mil coleções. Desde o ano 2000, os direitos da publicação da “Barsa” pertencem à Editora Planeta, que comercializa ainda uma versão eletrônica, intitulada “Barsa na Rede”. No ano de 1966, a “Barsa” chegou à minha casa, na cidade de Fortaleza, Ceará, e a dama da lombada vermelha ganhou espaço de destaque na biblioteca da família. E lá ficou. Quando meus pais deixaram o Ceará e foram, inicialmente, morar em Pouso Alegre/MG e depois em São Paulo, Capital, isso no início dos anos 1980, a biblioteca da casa foi doada para o Instituto Penal Paulo Sarasate (1970 até 2013), penitenciária de segurança máxima, localizada no município de Aquiraz/CE.

João Scortecci

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ALMANAQUE LUNÁRIO PERPÉTUO

Coleciono de tudo! Sou um acumulador de memórias impressas! Coleciono almanaques e busco, desde sempre, ter na minha coleção, um exemplar original do “Lunário Perpétuo”, o mais famoso e cobiçado almanaque já publicado no mundo. Não consegui, ainda. De autoria do matemático, astrônomo, naturalista e compilador espanhol, Jerônimo Cortés (1560 – 1610), “Lunário Perpétuo” foi publicado pela primeira vez no ano de 1594, em Valência, cidade portuária da costa sudeste da Espanha, e reeditado, ao longo de séculos, com pequenas variações em seu título e conteúdo, correções e atualizações. Foi publicado em língua portuguesa pela primeira vez em 1703, com tradução de Antônio da Silva de Brito, e se tornou popular no Brasil, principalmente na região Nordeste. Segundo o historiador e folclorista Luís da Câmara Cascudo (1898 – 1986), que mantinha um exemplar de “Lunário Perpétuo” na sua mesa de cabeceira, foi o livro mais lido no Nordeste brasileiro durante dois séculos. O almanaque oferecia conselhos e orientações sobre os mais variados aspectos da vida, incluindo tabelas das fases da Lua, dos eclipses do Sol e das festas móveis, previsões do tempo, horóscopos, elementos de Direito, navegação, teologia, saúde, agricultura, maneiras de interpretar o comportamento dos animais, biografias de santos e papas e outros dados de interesse geral. Explicação do nome: Lunário refere-se a um calendário baseado nas fases da Lua, usado para prever eventos naturais, como meteorologia, marés e agricultura, e Perpétuo indica que, diferentemente de um almanaque comum de apenas um ano, esse continha tabelas e cálculos projetados para durar para sempre – ou por tempo indeterminado –, permitindo consultar as fases da Lua e predições para qualquer ano futuro. O alemão Jorge Seckler (Georg Johann Seckler, 1840 – 1909), com 15 anos de idade, no ano de 1855, transferiu-se para o Brasil, tornando-se aprendiz de gráfico na Typographia Allemã, de Henrique Schroeder, na capital paulista. Posteriormente, tornou-se proprietário da Sociedade Artística Beneficente – na Rua São Bento, n. 58 – uma das mais importantes oficinas tipográficas paulistanas, responsável pela mais longeva série de almanaques comerciais do estado de São Paulo. Em 1862, adquiriu uma oficina de encadernação – que pertencia a Hermann Knoesel – e, em 1865, iniciou o serviço de impressão com tipos móveis. Entre 1872 e 1878, fundou a Typographia Livro Verde – na Rua Direita, n. 14/15 – estabelecimento que, além de serviços de impressão, oferecia livros, material de escritório, encadernação e pautação de papel para escrita. É desse período a “febre” dos almanaques, não só no Brasil. Em 1891, Jorge Seckler, adoentado, afastou-se do serviço de gráfico, e a empresa mudou de proprietário, passando a se chamar Companhia Industrial de S. Paulo. Nos dois anos seguintes, o “Almanach de Seckler”, como era conhecido, publicado pela Companhia Industrial de São Paulo, levou impressa na sua capa a marca: “sucessora de Jorge Seckler & Companhia”. Jorge Seckler faleceu em 23 de fevereiro de 1909, aos 69 anos de idade. “Lunário Perpétuo” continua sendo, até hoje, para colecionadores e admiradores de almanaques, objeto de desejo e obra obrigatória na coleção de um acumulador de memórias impressas!

João Scortecci

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AS MELGAS E A ALMA TRANSPIRANTE DO POETA

Não gosto de pernilongos. Duvido que alguém - deste mundo - goste deles. São medonhas! Dizem, não sei se é verdade, que fazem parte da cadeia alimentar das aranhas e das lagartixas. Sendo assim: estamos perdidos! Andei lendo sobre “muriçocas” – nome popular no Nordeste brasileiro para designar esse inseto – depois que soube o motivo científico deles me azucrinarem a vida, além da conta. Tenho no corpo “transpirante” excesso de dióxido de carbono e ácido lático. Isso eu não sabia. Durante o sono, entro em “fotossíntese”, transformando energia solar em energia química. Eita! Sou uma usina de cheiros, manias, desejos e vontades, que mexem com a cabeça das melgas – nome das fêmeas do inseto em muitas regiões. Elas me adoram! A história toda me deixou “cabreiro”. As melgas se alimentam de sangue, isso todo mundo sabe. Botam de 100 a 200 ovos, por vez. Antes da picada, num ritual de caça, vibram suas asas velozmente, com 270 a 310 batidas por segundo. Essas batidas de asas desencadeiam uma onda de pressão, com propagação de som pelo ar, numa frequência frenética, audível pelo ouvido humano. Quando o alvo é encontrado, o número de batidas de asas pode aumentar para 500 ou mais, por segundo. Quando “chapadas” com dióxido de carbono e ácido lático, ficam frenéticas! As melgas atacam nos dias de calor, na temperatura ambiente ideal para seu organismo, em torno de 26 ºC a 28 ºC. O calor e as tardes chuvosas aceleram o ciclo biológico das “meninas” barulhentas. Abaixo dos 18 ºC, elas hibernam. Acima dos 42 ºC, elas morrem. Nós também! Cada vez que se alimentam de sangue, as fêmeas realizam uma postura de ovos. A gestação e a postura duram de três a quatro dias. Os machos – isso eu não sabia – vivem de néctar ou seivas vegetais. São veganos! Após “transarem”, permanecem colados às fêmeas pelo seu esperma, evitando, dessa forma, que seus rivais se aproximem. Incomodadas, as melgas, livram-se dos machos grudentos, devorando-os, poupando, apenas, seu órgão genital, que exerce a função de “rolha” para impedir que outro pernilongo entre “no pedaço”. Depois de fecundadas e de devorarem seus parceiros – “numa boa, sem qualquer constrangimento” –, saem à caça, em busca de sangue fresco. A digestão do alimento pelas melgas dura, aproximadamente, 45 minutos. Depois, voltam e atacam sua vítima novamente. No Ceará, existe uma cidade de nome Sobral, a cerca de 230 km de Fortaleza, onde as muriçocas são gigantes. No lugar em que elas picam, forma-se um caroço maior que uma “pataca”. Não estou exagerando! A história “vampiresca” das muriçocas voadoras faz parte do folclore cearense. A cidade de Sobral - Januária de Acaraú até 1842 - é conhecida mundialmente por ter sido o local de comprovação da teoria da relatividade geral do físico alemão Albert Einstein (1879 – 1955), após um grupo de cientistas britânicos ter acompanhado o eclipse solar de 29 de maio de 1919. Melgas à parte – aqui com as minhas tripas –, sinto que Einstein, o físico alemão, é o principal culpado da gravidade do Sol, da postura do dióxido de carbono e do ácido lático no meu sangue e pelas fervuras poéticas da alma de poeta.

João Scortecci

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BIBLIOCLASTIA – ATÉ TU, BORGES!

Biblioclastia significa a destruição intencional e sistemática de livros. Os motivos são muitos: ódio ao seu conteúdo, aversão à cultura, medo do desconhecido, do novo, intolerância religiosa, perseguição política e ideológica, inveja, radicalismo. É erro – frequente e comum – atribuir as destruições de livros a homens ignorantes e estúpidos. A história nos mostra – também – outro universo, desconhecido e ignorado por muitos. Sobram exemplos de filósofos, eruditos e escritores que praticaram em suas vidas a biblioclastia. O filósofo, físico e matemático francês René Descartes (1596 – 1650), seguro de seu método de fusão da álgebra com a geometria, fato que gerou a geometria analítica e o sistema de coordenadas, pediu aos leitores que queimassem todos os livros antigos sobre o assunto. O filósofo e historiador escocês David Hume (1711 – 1776), que se tornou célebre pelo seu empirismo radical e o seu ceticismo filosófico, não hesitou em exigir a supressão de todos os livros sobre metafísica – filosofia que examina a natureza fundamental da realidade. O movimento futurista – que tinha como principal característica a valorização da tecnologia – publicou, em 1910, um manifesto em que preconizava o fim e a queima de todas as bibliotecas. Esqueçam o passado! Os poetas dadaístas colombianos – movimento artístico pertencente às vanguardas europeias do século XX, cujo lema era “a destruição também é criação” – queimaram, em 1967, exemplares do romance “Maria” do escritor colombiano Jorge Isaacs (1837 – 1895), convencidos de que era necessário destruir o passado literário do país. O poeta e romancista russo Vladimir Nabokov (1899 – 1977), professor das Universidades de Stanford e Harvard, queimou um exemplar de “Dom Quixote de La Mancha”, de Miguel de Cervantes, no Memorial Hall, diante de mais de 600 alunos. O filósofo, escritor e professor universitário Martin Heidegger (1889 – 1976) excluiu de sua biblioteca livros do matemático e filósofo alemão Edmund Husserl (1859 – 1938), para que seus estudantes de filosofia os queimassem, em 1933. O escritor, poeta, tradutor, crítico literário e ensaísta argentino Jorge Luis Borges (1899 – 1986) em “O congresso”, conto incluído em “O Livro de Areia” (1975), fez um de seus personagens dizer: “A cada tantos séculos há que se queimar a biblioteca de Alexandria... Queimar o passado é renovar o presente.”. Até tu, Borges!

João Scortecci

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ANOTEM NO BLOCO DE NOTAS: DIGAMA VEM AÍ!

Digama me ligou logo cedo no celular. No visor: número desconhecido. Depois, do nada, apareceu a letra F e o número 6. Pensei: novo golpe! No Chrome – navegador que uso – o F6 serve de atalho para digitar um novo URL. F6? Fiquei curioso, confesso. Atendi, então, a ligação com um indiferente: “Hã.”. Não falo mais “Alô, quem fala”. Agora digo simplesmente: “Hã”, sem entonação interrogativa alguma. Dizem – não sei se é verdade – que a IA anda clonando sua voz a partir de um simples “Alô”. “Hã”, repeti. Do outro lado da linha: “Aqui quem fala é o Digama, letra do alfabeto grego, irmão do Alfa, do Gama, do Beta.”. Você disse Digama?” “Sim.” Digitando no Google, encontrei: “Digama: Letra arcaica do alfabeto grego, com valor numérico 6.”. Perguntou-me, na lata: “O que você pode fazer por mim?”. Não conhecia a letra grega Digama. Conhecia as letras: Alfa, Beta, Gama, Capa, Zeta, Psi, Pi, Ýpsilon e Ômega. Digama insistiu: “O que você pode fazer por mim?”. Silêncio. Depois, abriu de vez, a matraca: “O mundo se esqueceu de mim. Li na Internet que sou uma letra arcaica. Fui abandonada no século V a.C. e ninguém, até hoje, explicou-me o motivo. Fui cancelado! Eu e os meus irmãos gregos: Qoppa, Sampi e San.”. Na hora, lembrei-me do cachorro Sampi, um caramelo esperto, adotado, de uma amiga dos anos 1990, que morava no bairro da Penha. Contei-lhe, então, a história triste de Sampi, que morreu atropelado correndo atrás de um caminhão de gás. Sampi, quando escutava a música “Für Elise”, de Beethoven, entrava em transe. Digama escutou a história, mas não gostou dela. Digama insistiu: “O que você pode fazer por mim?”. Respondi, então: “Tenho amigos na mídia eletrônica, jornalistas, políticos, cientistas, ativistas culturais e influenciadores: vou conversar com eles! E como falo com você?”. Digama explicou: “Digita jogo da velha, número 6 e depois asterisco.”. Anotei. Depois desligou. Liguei, então, para o William Blauvelt, velho conhecido, responsável pela ideia de incluir letras nos discadores e teclados dos aparelhos de telefone para facilitar a memorização de números. Hoje as senhas e códigos considerados “difíceis” são todos alfanuméricos, usam letras e números. Sequência clássica nos discos: 2(ABC), 3(DEF), 4(GHI), 5(JKL), 6(MNO), 7(PQRS), 8(TUV), 9(WXYZ). Anotei. Pensei: que tal MNO6D, em memória da letra grega Digama? William Blauvelt estava de mau humor. Acontece. Expliquei, então, a problemática do Digama e sua frustração pelo cancelamento injusto. Blauvelt resmungou. Bateu pino. Resfolegou: “Agora você também?”. “Eu também? Você e o tal do Elon Musk!”, exclamei e perguntei, surpreso: “O que o maluco do Musk quer?” Blauvelt não respondeu. Limitou-se a dizer: “Liga outro dia!”. Hã? E desligou. Mistério. Aqui com os meus enigmas: o que Musk quer com o cancelado do Digama?. Nova marca de carro? Novo satélite espião? Nova rede social de mensagens curtas? Acordei do pesadelo. Exausto e molhado de suor. Eu explico: depois que Digama desligou o telefone, dormi novamente. Tarde demais: no WhatsApp uma mensagem do inventor William Blauvelt: “Digama vem aí”. Hã?

João Scortecci

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MANÉ GARRINCHA E AS CLEPSIDRAS QUE ADORAM ÁGUA

As clepsidras adoram água. Bebem com boca grande e “gravidam” gotas de sal, pungindo assim – no tempo – as horas da vida. Confesso que nunca vi uma clepsidra em ação, trabalhando, gravidando. Somente em vídeos. São engenhocas engraçadas, de cintura fina, tronco largo e depositório farto. As clepsidras nasceram em 600 a.C. na Judeia, parte montanhosa do sul de Israel, entre a margem oeste do Mar Morto e o Mar Mediterrâneo. Depois delas surgiram as ampulhetas de areia, mais eficientes e menos temperamentais. Costumavam engripar no calor e, às vezes, também no frio. Tinham cintura fina e duas cabeças iguais, uma de cada lado. Parte do dia, marcavam olhando o tempo de cabeça para baixo. Doideira! Por volta de 1.500, o relojoeiro Peter Henlein (1479 – 1542), na cidade de Nuremberg, Alemanha, fabricou o primeiro relógio de bolso, todo de ferro, com corda para 40 horas. Em 1595, o italiano Galileu Galilei (1564 – 1642) descobriu o “isocronismo” dos pêndulos e as inesquecíveis casinhas de cuco, entre outras descobertas criativas. O século XVI foi das descobertas e, também, das perseguições religiosas. Relojoeiros protestantes saíram da França e se alocaram na Suíça. Território livre e neutro, quase sempre. Lá, na Suíça, nasceram as marcas de relógios: Omega, Swatch, Rolex, Tissot, Zenith, Patek Philippe e Breguet. Tudo isso para dizer que, mexendo no baú de coisas antigas, dos anos de menino, encontrei o craque Mané Garrincha (1933 – 1983), do meu jogo de botão e uma capa de relógio Patek Philippe, do meu glorioso Botafogo. O Botafogo, time da estrela solitária, era o meu time de criança, isso no Ceará dos anos 1960. As clepsidras ou relógios de águas, como queiram, foram um dos primeiros sistemas criados pelo homem para medir o tempo, assim como o relógio de sol e a ampulheta. Mediam a vida! As clepsidras – dos gols e dos dribles – marcaram no futebol a gravidade de Garrincha, o moço das pernas tortas. Eu o vi jogar uma única vez, no eterno da história da bola. Assim são as engenhocas do tempo e as genialidades da vida!

João Scortecci

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BOULEVARD DA CONCEIÇÃO E O PINTOR CHICO DA SILVA

Descendo a Avenida D. Manuel, batizada em homenagem a Dom Manoel da Silva Gomes, o primeiro arcebispo da cidade de Fortaleza/CE, conhecida como o Boulevard da Conceição, devido à proximidade com a Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Prainha, via histórica do século XIX, projetada em 1893, pelo engenheiro e arquiteto Adolfo Herbster (João Adolfo Herbster, 1826 – 1893), na direção do mar, logo depois da Igreja da Prainha (nome popular), virando a esquerda, fica a Favela do Pirambu, maior favela do Ceará e uma das sete maiores do Brasil, com 20 mil moradores, com um histórico de luta e resistência contra a exclusão social e a remoção forçada. Morávamos no número 1.086, do Boulevard da Conceição, na Vila Santa Terezinha, conjunto de quatro casas, entre a Avenida Duque de Caxias e a Rua Pero Coelho, que ocupava quase o quarteirão inteiro. A Vila Santa Terezinha não existe mais, foi vendida para o Banco do Nordeste, no final dos anos 1980. A Favela do Pirambu – nome de peixe da região, o sargo de beiço, que emite um ruído conhecido popularmente como “peixe que ronca” – cresceu na orla da praia a partir dos anos 1930, ocupada, inicialmente, por retirantes das secas e pescadores. No início dos anos 1980, o Pirambu passou por uma grande urbanização, após a construção da Avenida Leste-Oeste, em 1973. Deixei Fortaleza um ano antes, em 1972. Visitei a Avenida Leste-Oeste numa das férias na capital cearense, em 1974 ou 1975. Fomos de Jeep Barbarella até a Barra do Ceará, foz do Rio Ceará. No jeep estavam meu irmão José, minha irmã Ana, minhas primas Neca, Branca e Lolo e mais uma pessoa, de que, infelizmente, não consigo me lembrar agora. No meio da aventura, paramos para conhecer pessoalmente o pintor Chico da Silva (Francisco Domingos da Silva, 1910 – 1985), de Cruzeiro do Sul – Alto Tejo, estado do Acre, descendente de mãe cearense e pai índio da Amazônia peruana. Radicado no Ceará desde 1934, o pintor vendia seus quadros de dragões, peixes voadores, galos e sereias, no canteiro central da Avenida Leste-Oeste. Foi descoberto pelo cartazista, publicitário e músico suíço, radicado em Fortaleza, Jean-Pierre Chabloz (1910 – 1984), que, em meados da década de 1950, notou um de seus grafites em uma parede na praia do Pirambu, onde Chico da Silva costumava desenhar. Chabloz lhe ensinou as técnicas do guache e do óleo e logo passou a expor seus trabalhos em Fortaleza, no Rio de Janeiro, França, Suíça, Itália e Rússia. Em 1966, recebeu Menção Honrosa na XXXIII Bienal de Veneza. A fama de Chico da Silva correu o mundo, recebendo pedidos de toda parte. Como não conseguia pintar tantas telas, montou um time de aprendizes para a produção em série de quadros. Chico só assinava os quadros. Com o tempo ninguém mais sabia distinguir o que era original do que era imitação. Escutei uma vez de uma famosa colecionadora de quadros: “O que vale é a assinatura!”. Quando era ainda um pintor desconhecido, Chico da Silva era chamado no Pirambu de “indiozinho débil mental”. Afundado na bebida e levando uma vida desregrada, faleceu no dia 6 de dezembro de 1985, aos 75 anos de idade.

João Scortecci

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MANUEL BANDEIRA E O TÚMULO DE CIRO, O GRANDE

O poeta, crítico literário e de arte, professor de literatura e tradutor pernambucano Manuel Bandeira (Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho, 1886 – 1968), é um dos principais integrantes da “geração de 1922”, na primeira fase do movimento modernista no Brasil. Seu poema “Os sapos” foi o abre-alas da Semana de Arte Moderna, realizada no Teatro Municipal de São Paulo, de 13 a 17 de fevereiro de 1922. O poema de Bandeira foi lido pelo poeta carioca Ronald de Carvalho (1893 – 1935), entre vaias, gritos da plateia, patadas e interrupções, tendo se convertido em um clássico da poesia modernista brasileira. O poema “Os sapos” contém ironia corrosiva aos parnasianos, cuja influência – assim como a dos simbolistas – encontra-se nos primeiros poemas de Bandeira: “Enfunando os papos,/ Saem da penumbra,/ Aos pulos, os sapos. A luz os deslumbra.// (...) O sapo-tanoeiro,/ Parnasiano aguado,/ Diz: — ‘Meu cancioneiro/É bem martelado.// (...) Vede como primo/ Em comer os hiatos!/ Que arte! E nunca rimo/Os termos cognatos!’// (...). O poema – hoje – não me diz muito. Não passa de uma provocação de época, algo assim. Nos anos 1970, li a obra de Bandeira, e o poema “Vou-me embora pra Pasárgada” se eternizou dentro de mim. Os quatro primeiros versos são imortais e habitam o coração de quase todos os poetas. Eu os trago – sempre – na ponta da língua: “Vou-me embora pra Pasárgada/ Lá sou amigo do rei/ Lá tenho a mulher que eu quero/ Na cama que escolherei.” Voltando ao poema, lendo-o inteiro, chego aos versos que mexem comigo: “E como farei ginástica/ Andarei de bicicleta/ Montarei em burro brabo/ Subirei no pau-de-sebo/ Tomarei banhos de mar!” Cinco desejos pontuais, sempre, nas minhas resoluções de todo ano-novo. Realizá-los, todos e juntos, somente me mudando, de vez, para o imaginário refúgio de Pasárgada, cidade da antiga Pérsia, atualmente um sítio arqueológico na província de Fars, na região de Persépolis, no Irã. No lugar dos sonhos do poeta Bandeira, encontra-se a tumba do imperador Ciro, o Grande, com os dizeres: “Ó forasteiro, quem quer que sejas, de onde quer que venhas, porque sei que virás, sou Ciro, que fundou o Império dos Persas. Não tenha rancor de mim por causa dessa pequena terra que cobre meu corpo.” Dizeres que, talvez, expliquem os últimos versos do poema de Bandeira: “E quando eu estiver mais triste/ Mas triste de não ter jeito/ Quando de noite me der/ Vontade de me matar/ – Lá sou amigo do rei – / Terei a mulher que eu quero/ Na cama que escolherei/ Vou-me embora pra Pasárgada”.

João Scortecci

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O PRINCÍPIO DE TUDO: A POESIA

O primeiro momento da existência! Perguntaram-me: “Do que tenho medo?”. Pensei em responder, de pronto: “Não tenho medo de nada!”. Mentira! Estaria mentindo, sendo falso, dizendo que não tenho medo de nada. Confesso: tenho medo de muitas coisas! Palestrava sobre “Livros e a Arte de Escrever”, para um pequeno grupo de alunos de uma faculdade de Letras do interior do estado de São Paulo. Poderia, na época, ter dado uma resposta teatral, clássica: “Tenho medo da natureza humana!”, algo assim. Refleti. Estaria sendo covarde. Olhei para a aluna – moça miúda, negra, de óculos – sentada sozinha no canto da sala. Repeti – em voz alta – a sua poderosa pergunta: “Do que eu tenho medo?”. Na manhã daquele dia – coincidências não existem –, lendo sobre a Escola Jônica e a vida do filósofo e matemático Anaximandro (610 a.C. – 546 a.C.), discípulo de Tales, havia anotado, no bloco de notas do celular, a verdadeira e sincera resposta. Premonição? Talvez. Foi lendo sobre a Escola Jônica – que buscavam o Arché, conceito central que designa o princípio, origem, substância primordial de todas as coisas –, que construí, ali, na hora, a minha resposta. Derradeira? Talvez. Depois de tantos anos escrevendo, publicando e comercializando livros, guardei no coração muitos medos: medo de fracassar, de não ser lido, medo do ridículo, medo da insignificância literária, medo disso e daquilo e mais: medo de ser esquecido no tempo. Disse-lhe, então: “Tenho medo de ser esquecido!”. Silêncio. Olhei para o relógio. Hora, então, de encerrar a palestra. Resfoleguei: “Mais alguma pergunta?”. Silêncio. Agradeci e me sentei, exausto e com sede. Bebi água e respirei fundo, surpreso com a minha inesperada e íntima resposta: "Medo de ser esquecido!". A aluna – Flávia, talvez – se aproximou e me cumprimentou. Disse-me, com o coração saindo pela boca: “Tenho medo de mostrar as minhas poesias!”. Deu meia volta e foi embora, veloz. Carregava nos braços um caderno espiral, de capa azul. Suas poesias? Pensei. Voltei, então, ao princípio do meu incerto tempo: até o momento primeiro da minha existência de poeta e nada mais. Aconteceu assim: tornei-me editor de livros para que pudesse então publicar os meus versos, os meus textos, os meus rabiscos; depois, tornei-me gráfico, com a missão imortal de imprimi-los; e, por fim, um livreiro, para poder, então, vendê-los, no vasto mundo. Escrever sempre foi a causa primária, a razão de tudo. Quando me tornei editor e gráfico, em 1982 e 1986, respectivamente, o empresário engoliu de vez o poeta. Foi dolorido, na época. Esqueceram da minha poesia! Durante muitos anos tentei – inutilmente – separar o poeta do editor, o gráfico do poeta e o editor do livreiro, sem sucesso. Repetia, sempre: “Serei uma roupa para cada ocasião!”. Enganei-me. Num convite para uma palestra na Academia de Letras de Jacareí, interior de São Paulo – isso no início do ano de 2015 – encontrei, impresso, a resposta, a solução do engodo. Escreveram, no convite: João Scortecci: escritor, editor, gráfico e livreiro. E assim ficou, sequência lógica das coisas. Anaximandro, o filósofo e matemático, escreveu: “O mundo é constituído de contrários, que se autoexcluem o tempo todo. O tempo é o juiz que permite que ora exista um, ora outro. O mundo surge de duas grandes injustiças: primeiro, da cisão dos opostos que ‘fere’ a unidade do princípio; segundo, da luta entre os princípios onde sempre um deles quer tomar o lugar do outro para poder existir.” Na sua singular existência uma trágica nota de rodapé: Relatos doxográficos nos dão conta de que Anaximandro escreveu um livro intitulado "Sobre a Natureza"; contudo, essa obra, infelizmente, perdeu-se no tempo. Pergunto-me, onde sempre um deles quer tomar o lugar do outro para poder existir: “Do que eu tenho medo?". Resposta: da cisão dos opostos que fere a unidade do princípio. Qual deles? O de continuar escrevendo, apenas isso.

João Scortecci

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BI SHENG, GUTENBERG E A INVENÇÃO DOS TIPOS MÓVEIS

 O artesão chinês Bi Sheng (990 – 1051 d.C.) era um sujeito estranho. Solitário e de pouca ou nenhuma conversa. Vivia enfronhado no porão do palácio de Sung Tai Tsu, imperador da dinastia Sung, que governou a China de 960 a 1279. Bi Sheng vivia sob a graça e a proteção do imperador. Viajando no tempo, estivemos juntos – três vezes – naquela vida, na China. Na primeira vez, eu era um aprendiz gráfico – com 16 anos de idade –; ele, o importante alquimista do imperador, na época, com pouco mais de 50 anos de idade. Perguntei-lhe: “O que o Mestre está fazendo?”. Bi Sheng não respondeu. Deixei, então, a encomenda – papel, tinta e argila – no chão de pedra da oficina e fui embora. O nosso segundo encontro não foi muito diferente do primeiro. “Bom dia, Mestre!” Bi Sheng levantou a cabeça e me olhou, por alguns segundos, nada mais que isso. Deixei, então, a encomenda no chão de pedra da oficina e fui embora. Nada mais. Pensei: sujeito estranho! No terceiro e último encontro, levei argila e madeira seca para alimentar o forno. Insisti, teimoso que sou: “O que o Mestre está fazendo?”. Bi Sheng – disperso e pensativo – sussurrou: “Ideogramas!”. Doido mesmo. Recolhi o lixo da oficina, arrumei sua cama de dormir, alimentei o forno com lenha nova e – de passagem – dei uma espiada no seu misterioso trabalho. Bi Sheng assava no forno, no dorso de uma pedra incandescente, pequenos blocos de argila. Na história das artes gráficas Bi Sheng foi o inventor da tecnologia de tipos móveis, uma das quatro grandes invenções da antiga China. Eu estava lá. Vi e não vi. Entre 1041 e 1048, Bi Sheng moldou ideogramas – símbolos gráficos – em pequenos blocos de argila úmida, desenhou na superfície de cada um deles um ideograma chinês e os levou ao forno para endurecê-los. Montou sinais, símbolos, palavras, cobriu-os com tinta fresca e, depois, forjou-os no branco do papel. Pura maluquice! A invenção de Bi Sheng – base da prensa de tipos móveis – avançou no tempo e viajou pelos caminhos do destino, até Johannes Gutenberg. Despedimo-nos, naquele mesmo dia, no melhor da criação. “Adeus!”. Bi Sheng não respondeu. Recolheu-se. Reencontramo-nos 400 anos depois, em Mogúncia, na Alemanha, no ano da graça de 1450. “Bi Sheng, é você?”, perguntei. Ele riu. “Sim e não. Eu agora me chamo Johannes Gutenberg”. “E o que o Mestre faz aqui?”, quis saber, curioso. Bi Sheng, ou melhor, Johannes Gutenberg, respondeu-me: “Eu vim concluir a minha engenhoca e, de gosto, imprimir, talvez, a Bíblia”. Olhou-me surpreso: “E você, continua aprendiz?”. Respondi: “Sim. No melhor das impressões!”. Risos. Ele riu. Coloquei a encomenda no chão da oficina e fui embora, dessa vez, para sempre, viajante na imensidão do tempo.

João Scortecci

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FOBIAS E O AMOR EMBURRECIDO DA GRÉCIA ANTIGA

Acordei com “alguém” no rádio falando sobre ansiedade, depressão e tecnofobia. Tecnofobia? Isso mesmo. Não conhecia a expressão. Levantei e fui saber do assunto: medo, resistência, aversão à tecnologia. Minha mãe Nilce, professora e advogada brilhante, leitora voraz, odiava “botões”. Não escondia de ninguém o seu “transtorno”. Dizia sempre: “Gostaria de ter nascido num mundo sem botões!”. Tecnofobia por computadores, sistemas autônomos, celulares, aplicativos, são espinhos que assustam muita gente. “Tudo invenção do diabo!”, segundo alguns. A escrita – a mais importante de todas as invenções humanas, sem a qual nossas “ciências” seriam apenas uma “lamparina” na escuridão do conhecimento – foi recebida com desconfiança por ninguém menos do que Platão (428/‎427 a.C. – 348/‎347 a.C.), filósofo e matemático do período clássico da Grécia Antiga, discípulo de Sócrates (c.470 a.C. – 399 a.C.) e fundador da Academia em Atenas. No diálogo “Fedro”, Platão sugere que a disseminação da escrita mataria a memória, pois ninguém mais se preocuparia em exercitar a capacidade de guardar informações. Lembro-me de ter escutado algo parecido quando surgiram as primeiras calculadoras eletrônicas de bolso. Algo assim: “O mundo vai emburrecer!”. No ano de 1971, meu pai Luiz Gonzaga recebeu um convite especial. Um convite tecnológico! Evento de lançamento da primeira calculadora eletrônica de bolso da Sharp. O evento – chique e memorável – aconteceu no saguão do Cine São Luiz (Luiz Severiano Ribeiro), na Praça do Ferreira, no coração da cidade de Fortaleza. Quando papai Luiz morreu, fiz questão de ficar com a coleção de filmes 8 e Super 8 mm, o seu canivete suíço, os jogos de tabuleiros – gamão e outros – e duas calculadoras, uma Sharp, de cristal líquido e uma Curta, calculadora mecânica inventada por Curt Herzstark em 1948. Raridades! O livro “Fedro”, escrito por Platão em torno do ano 370 a.C. – que li no ano de 1974, no volume I, da coleção “Os Pensadores” (Editora Abril Cultural) – é um diálogo entre Platão, Sócrates e Fedro, ateniense jovem e rico, filho de Phythoclès. A obra versa, predominantemente, sobre o amor, abordando temas diversos como a alma, a escrita e a retórica, a metempsicose, a tradição grega da reencarnação; “ero”, o amor erótico; e “philia”, a amizade. Os gregos antigos tinham mais de uma palavra para definir a natureza do amor: “eros”, “philia” e “ágape”, amor por todos os seres, conexão com a natureza, a humanidade e o universo. Pesquisando na Internet sobre fobias, encontrei mais de 150 tipos. Curiosidade mata! Listei, a gosto, cinco fobias: “Ablepsifobia” (medo de ficar cego), “Agrizoofobia” (medo de animais selvagens), “Amnesifobia” (medo de perder a memória), “Toxofobia” (medo de morrer envenenado) e “Aracnofobia” (medo de aranhas). Cinco fobias que habitam os meus medos. Estranho – muito estranho mesmo – foi encontrar na lista das 150 fobias a “Metrofobia”, medo de poesia. Medo de poesia? Morrendo e aprendendo. Encontrei, também, outras fobias estranhas: Corofobia (medo de dança), Xantofobia (medo da cor amarela), Hipopotomonstrosesquipedaliofobia (medo de palavras grandes) e Alectorofobia (medo de galinhas). Platão tinha razão: “O mundo emburreceu!”. Tudo invenção do diabo!

João Scortecci

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MARIA JOSÉ DE CARVALHO, FEDERICO GARCIA LORCA E O CABARÉ DO GATO

Conheci o Cabaré do Gato, na Rua Silva Bueno, n.1533, no bairro Ipiranga, capital paulista, nos anos 1980. Quem me levou – pela primeira vez – para uma apresentação lítero-musical, foi a poeta, dramaturga, professora universitária e tradutora Renata Pallottini (1931 – 2021). No endereço, morava a poeta, atriz, cantora, tradutora, pianista, diretora e crítica teatral e professora de dicção Maria José de Carvalho (1919 – 1995), figura marcante na cultura paulistana entre os anos 1940 e 1970. Estudou canto, piano e violino no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo. Foi casada com o maestro Diogo Pacheco (Diogo de Assis Pacheco, 1921 – 2022). Em 1986, Maria José de Carvalho traduziu e publicou, pela Scortecci Editora, o livro “Poema do Cante Jondo” (1921), do poeta e dramaturgo espanhol Federico García Lorca (1898 – 1936), nascido na província de Granada, comunidade autónoma de Andaluzia, Espanha. Lorca integrou a “Geração de 27”, grupo de artistas e literatos espanhóis que explorava formas vanguardistas nas artes e na poesia. Foi um dos maiores representantes do teatro poético e o poeta de maior influência e popularidade da literatura espanhola do século XX. Conviveu com artistas como o pintor Salvador Dalí e o cineasta Luis Buñuel. Seu estilo é marcado por simbologias e referências à cultura tradicional e popular espanhola. Aos 38 anos de idade, Lorca foi assassinado por fuzilamento, por ordem da ditadura do General Francisco Franco. Foi uma das primeiras vítimas da Guerra Civil Espanhola (1936 a 1939), que matou mais de 1 milhão de pessoas. Os motivos do seu assassinato são incertos e controversos. Acredita-se que tenha sido fuzilado às 4h45 da madrugada do dia 18 de agosto de 1936 e enterrado em vala comum, nas proximidades da cidade de Alfacar, na província de Granada. Em sua curta existência, Lorca escreveu importantes obras-primas da literatura, várias delas publicadas postumamente. Uma de suas mais elogiadas criações poéticas é “Romancero Gitano” (“Romanceiro Cigano”), de 1928, com poemas sobre a vida e a cultura dos ciganos de Andaluzia. Eis um trecho do poema “Preciosa e o ar”: “Sua lua de pergaminho/ Preciosa tocando vem,/ por um anfíbio sendeiro/ de cristais e louros./ O silêncio sem estrelas,/ fugindo do sonsonete,/ cai onde o mar bate e canta/ sua noite cheia de peixes (...)”. Quando adentrei no casarão da Rua Silva Bueno, no Ipiranga, templo da poeta e atriz Maria José Carvalho, de pronto descobri a razão do nome “Cabaré do Gato”: gatos, centenas deles, ilhados e entrincheirados, miados, domesticados, selvagens, cobrindo todo o cio da noite de lua cheia. O casarão construído em 1927 atualmente abriga a Casa de Teatro “Maria José de Carvalho”.

João Scortecci

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