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MARIA VIANNA: ATRIZ E POETA NA “VERTICAL DOS DESCAMINHOS”

“O Menino da Porteira” é um filme brasileiro de longa-metragem de 1976, dirigido por Jeremias Moreira Filho, inspirado na canção homônima, de Teddy Vieira. O filme foi rodado nas cidades de Araraquara e Borborema, no estado de São Paulo, e de Ouro Fino, no estado de Minas Gerais. No elenco, estavam Sérgio Reis, Jofre Soares, Maria Vianna e outros. Maria Vianna (Maria Viana de Paula) nasceu em Santa Quitéria, no Ceará, em 8 de julho de 1946. Começou sua carreira de atriz com um pequeno papel no filme “Sinal vermelho, as fêmeas”, mas o sucesso chegou logo depois, ao fazer o principal papel feminino em “Paixão de um homem”, ao lado do cantor Waldick Soriano. Maria Vianna fez vários filmes nos anos 1970: “O signo do escorpião”; “O poderoso garanhão”; “O menino da porteira”; “Mágoa de boiadeiro”; “Os pastores da noite”; e “O cangaceiro do diabo”. Na Rede Tupi de Televisão, em 1972, trabalhou na novela “Vitoria Bonelli”, de Geraldo Vietri. Na mesma emissora atuou ainda em “Cinderela 77” e em “Aritana”, novela de Ivani Ribeiro, de 1978. Conheci a atriz Maria Vianna no ano de 1982, por meio do deputado e amigo mackenzista Cunha Bueno (Antônio Henrique Bittencourt da Cunha Bueno (1949 - 2024), na época Secretário de Cultura do Estado de São Paulo. O papo com Maria Vianna rolou e alguns dias depois trouxe o seu livro inédito de poesias “Vertical dos Descaminhos” para publicar na Scortecci. Nome completo? Ela respondeu: “Maria Viana de Paula, de Santa Quitéria, no Ceará!”. “Sobrenome Paula?” “Sim.” Disse-lhe, então: “Somos parentes!”. Risos. Para quem não sabe o meu sobrenome também é “Paula”, família cearense, por parte de pai, da cidade de Quixadá. Maria Vianna, belíssima, morena, 36 anos de idade – a Greta Garbo brasileira – muito conhecida no meio cinematográfico brasileiro. Fez história! O lançamento do seu livro “Vertical dos Descaminhos” aconteceu no MIS – Museu da Imagem e do Som, na Av. Europa, n. 158, na capital paulista. Evento “disputadíssimo” com a presença de políticos e artistas famosos, entre eles: Regina Duarte, Tarcísio Meira, Sérgio Reis e Outros. O evento estava marcado para começar oficialmente às 19 horas. O livro “Vertical dos Descaminhos” ficou pronto na véspera e foi retirado pela autora na manhã do dia do evento. Perguntei-lhe, preocupado: “Você não quer que eu leve os livros?”. “Não. Vou deixá-los no porta-malas do carro! Tenho ainda que pegar o vestido novo na costureira, cabeleireiro, unhas, maquiagem e ainda uma sessão de fotos.” “Compreendo”, respondi. Cheguei ao MIS às 18h45, quinze minutos antes do horário de início. Já estava lotado! Mais de 200 pessoas aguardavam a chegada da atriz. Procurei no meio do povo por Maria Vianna. Nada! As 20h30, o público começou a ir embora. Desespero. Perguntas: “E o livro?”. Confesso: não foi fácil explicar que os livros não estavam com o editor e sim no porta-malas do seu carro da Atriz. Maria Vianna chegou ao MIS por volta das 21h10, quase no horário marcado para o encerramento do lançamento. “Deus do céu, o que aconteceu?” Ela – na maior calma do mundo – explicou-me: “Já estava no táxi quando lembrei que havia esquecido os livros no porta-malas do carro. Voltei, então, para buscá-los”. Maria Viana faleceu em 1984, aos 37 anos de idade. Sua morte até hoje é um mistério. Amigos da atriz desmentem a sua morte e afirmam que Maria Vianna vive “reclusa” em Nova York, nos Estados Unidos da América. Pesquisando na Internet, soube que ela se casou com o diretor e autor argentino Yago Blass (1908 – 1979), perambulou alguns anos pela África e, depois, mudou-se, em definitivo, para Nova York. Dizem ainda que teve uma filha, de nome Amanda. E nada mais. Sumiu. Mistério total. Nunca mais soube de Maria Vianna, a Greta Garbo de Santa Quitéria. Nosso último encontro se deu na virada do ano novo de 1982. Foi assim: sentamo-nos no meio fio da calçada defronte da sua casa e lá, sozinhos, na vertical dos descaminhos, bebemos champagne e poesia.

João Scortecci

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SÃO OS OLHOS DO MAR: CEGO ADERALDO, PEDRO II E O FAROL DO MUCURIPE

Todo cearense – de nascimento, coração ou de passagem repentina - tem paixão “arretada” pelo Farol do Mucuripe. Amor não se explica! Vive-se: desbragadamente! Erguido com alvenaria, madeira e ferro no ano de 1840, o Farol do Mucuripe funcionou por quase 100 anos. Em 1846, foi atingido por um incêndio e ficou adormecido por 45 anos, até o ano de 1871. Dizem – entre rimas e repentes – que, durante o seu silêncio e no melhor dos ventos, foi o poeta Cego Aderaldo (Aderaldo Ferreira de Araújo, 1878 – 1967) quem conduziu a direção segura das velas na imensidão do mar. É o que dizem! Cego Aderaldo nasceu em Quixadá, terra do meu avô paterno João Batista (o “Batista da Light”) e morada espiritual da imortal escritora Rachel de Queiroz (1910 – 2003). O Farol do Mucuripe piscava a todo minuto, e sua luz “amarelada” era visível a 24 quilômetros de distância. Consolidou-se como um importante marco da cidade, e sua estampa de “cidade do sol” figura – desde o século XIX – no brasão do estado do Ceará. Em 1958, obsoleto, o farol foi desativado. Mais de 20 anos depois, ganhou uma revitalização e foi – novamente – esquecido. Em 2017, a cidade de Fortaleza ganhou um novo farol, no bairro Vicente Pinzón, (Vicente Yáñez Pinzón, 1462 – 1514), com 72 metros de altura e três vezes mais alto que o do Mucuripe. Vicente Pinzón é considerado por muitos historiadores o verdadeiro descobridor do Brasil, por ter atingido o Cabo de Santo Agostinho no litoral de Pernambuco em 26 de janeiro de 1500, cerca de três meses antes da chegada de Pedro Álvares Cabral a Porto Seguro. Segundo a Marinha Brasileira, o novo farol conserva o aparelho lenticular do farol do Mucuripe, de alto valor histórico e simbólico, por ter sido doado pelo imperador Dom Pedro II. O Farol do Mucuripe “é o castelo tomado pelos meninos da praia, que, na falta de opções de lazer, fingem ser piratas e escorregam pelas muretas pedregosas”, escreveu a jornalista cearense Beatriz Jucá, no “El País – Brasil”. O texto de Beatriz – de passagem repentina – fez-me lembrar da abertura da obra “Capitães da Areia”, do escritor baiano Jorge Amado. O Farol do Mucuripe – conhecido historicamente como “Farol Velho” – foi restaurado e revitalizado no ano de 2025. “São os olhos do mar” na música do Pessoal do Ceará (Amelinha, Belchior, Fagner, Fausto Nilo, Ednardo, Rodger Rogério e Téti), e ainda pisca nos versos do poeta Aderaldo e no coração distante – de quase exílio – do eu menino. “O Farol de Mucuripe é a cidade de Fortaleza, é uma metáfora da cidade”: palavras do historiador e professor Evaldo Lima. Uma paixão arretada!

João Scortecci

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BATISMO DE URINA E MORTADELA NO PÃO

Sou torcedor do Palmeiras – desde o ano de 1972 –, quando me mudei em definitivo para a cidade de São Paulo. Tinha na época 16 anos de idade e não mais alimentava o sonho maluco de ser goleiro profissional. O culpado de tudo? Paixão pelo goleiro Castilho (Carlos José Castilho, 1927 – 1987), campeão do mundo nas copas de 1958 e 1962. No Ceará, minha terra natal, torço para o Fortaleza Esporte Clube, o Leão do Pici. Um registro: na infância – isso nos anos 1960 – meu time de botão chamava-se Botafogo. Uma explicação simples: fã do Mané Garrincha! Tornei-me torcedor do Fortaleza Esporte Clube, depois de assistir no PV (Estádio Presidente Vargas) ao jogo entre os times do Fortaleza e do Ceará, pelo Campeonato Cearense. Fui a convite dos irmãos e dos amigos de infância: Alexandre, Guilherme, Raul e Paulinho, filhos da Dóris Holanda Sampaio, vizinhos, inquilinos dos meus avós paternos João Batista e Sarah. Confesso: nunca tinha pisado num estádio de futebol e a oportunidade parecia imperdível. Fomos, então: Alexandre, Raul e Paulinho, torcedores do Ceará Sporting Clube e Guilherme, o Gorgulho, torcedor do Fortaleza. Optei por fazer companhia ao Guilherme, para não deixá-lo sozinho, algo assim. No PV, a torcida do Fortaleza, na época, ficava do lado oposto à entrada principal do estádio, atrás de uma das traves do gol. Lembro-me de que jurei: “Viro torcedor do time que ganhar! Combinado?” E assim foi. Naquele dia memorável, o Fortaleza goleou o Ceará por 4 X 0, fora o olé. Depois do jogo, na saída do PV, Guilherme gritou: “Pronto para correr?”. “Sim”, respondi. Guilherme calçou as sandálias havaianas nos dedos das mãos e saiu correndo. Fiz o mesmo. Lembro-me do sol – pegando fogo na cabeça – e da chuva amarelada caindo do céu. Casamento de viúva? Não. “Corre que é mijo! Feche a boca e olhe para o chão!”. Na época – não sei hoje – a saída da torcida do Fortaleza passava literalmente por debaixo da arquibancada da torcida do Ceará. Ficamos ensopados de mijo! Já fora do estádio, tirei a camisa e a guardei num saco plástico. Aproveitei e comprei a minha primeira camisa do Fortaleza. Estava, então, batizado. Depois a turma toda foi comer pão com mortadela e zoar. Daquele dia de sol e chuva, ficou na alma: gols, mortadela e urina! Durante alguns anos – desconheço a razão – evitei de comer mortadela, até o dia em que meu filho Alexandre confessou-me: “Pai, adoro mortadela!”. Desde então, passamos a comer juntos mortadela no pão e torcer, desbragadamente, pelo Palmeiras.

João Scortecci

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A BOLA DE ESCREVER DO DINAMARQUÊS MALLING-HANSEN

Coleciono máquinas de escrever! Em especial máquinas antigas, do tempo do onça. Importante saber de cada uma delas: origem, de onde veio, por onde andou, seu dono, seus segredos. Um detalhe significativo: precisa ter estojo. Antes de guardá-las no memorial, limpo, lubrifico, troco a fita, faço manutenção completa. Escutar a batida das teclas no papel é algo incrível. Batida inconfundível, imortal. Uma deixa: impressão funcional, basta teclar. É o dito pelo não dito! As teclas aceitam de tudo: amor, paixão, raiva, delicadeza, soberba, sonhos e até segredos. Depois: o que nos resta fazer? Continuar – só porque começamos – ou, desavisados, amassar a folha de papel e jogá-la no lixo. A minha primeira máquina de escrever foi uma portátil Hermes Baby, vermelha, novinha em folha. Tive outras marcas: Remington, Olivetti, IBM, Facit e Olympia. Hoje, guardo no memorial uma Olivetti – que tem história – uma Hermes Baby e duas Remington, modelos diferentes. O dinamarquês Malling-Hansen (Hans Rasmus Johan Malling-Hansen, 1835 – 1890), diretor do instituto dinamarquês para surdos e mudos na cidade de Copenhague, é famoso por inventar a primeira máquina de escrever produzida comercialmente: a incrível Bola de Escrita Hansen (“Hansen Writing Ball”). A máquina foi inventada em 1865, patenteada e colocada em produção em 1870. Dizem – não há registros oficiais – que dela foram fabricadas 180 unidades. Por sua invenção, Malling-Hansen recebeu vários prêmios. A máquina Hansen, desde sua invenção, já apresentava todos os refinamentos das máquinas de escrever dos anos 1940-50. São eles: barra de espaço, retorno automático de carro, espaçamento entre linhas, índice para parágrafos ou linhas recuadas, campainha para sinalizar o fim da linha, reversão de fita e – por último, mas não menos importante – escrita visível ao elevar o mecanismo de digitação. O dinamarquês Malling-Hansen foi também o primeiro a descobrir as possibilidades únicas do papel carbono azul e desenvolveu uma técnica de cópia que chamou de “xerografia”, técnica de impressão que permitia produzir – em um período curto –, até cem cópias de cartas, desenhos e documentos. Em 1938, coube a Chester Carlson (Chester Floyd Carlson, 1906 – 1968), desenvolver a tecnologia da xerografia, hoje usada nas copiadoras e impressoras a laser. É quando, então, a bola gira, punge o papel, imprime no tempo suas histórias de vida.

João Scortecci

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O RIO JAGUARIBE NO CEARÁ E O LOBO AMARELO

O Açude Padre Cícero, conhecido como Castanhão, foi construído no ano de 1995, no leito do Rio Jaguaribe, no Ceará. O Rio Jaguaribe é considerado o maior rio seco do mundo! Parte do ano permanece “seco” ou com pouquíssima água. Na época das chuvas ganha água de pequenos afluentes e desemboca no oceano atlântico, perto da cidade de Aracati, distante 150 km da Capital, Fortaleza. O Rio Jaguaribe tem extensão de 633 km e uma foz com mais 900 metros de largura. Quando lobinho da matilha Amarela, isso na infância dos anos 1960, acampamos nas areias do seu leito. Uma aventura inesquecível! A noite, na roda da fogueira, alguém nos contou um segredo: O Rio Jaguaribe é místico e sensível. Ganha - misteriosamente - águas do nada, no silêncio da noite. Lágrimas de dor do povo sofrido e renitente do Ceará. É o que dizem. E, silenciosamente, do nada, banha de luz e esperança os corações da terra. Na primeira noite acampados no leito seco do rio foi difícil dormir. Ouvidos atentos, coração alerta, sangue picado de medo. Tive pesadelos e visões estranhas. Eu - ilhado na boca do céu - nadando perdido sem rumo, sem direção. Tinha 8 anos de idade. Anos depois, lendo sobre o açude do “Padim”, dei de cara com os segredos místicos dos aquíferos do Rio Jaguaribe, rochas porosas e permeáveis, capazes de reter e armazenar água subterrânea. Foi quando, então, deixei-me, voltar no tempo distante. Eu lobinho, da matilha Amarela, abduzido nas águas doces e mágicas do Rio Jaguaribe. Paz, muita paz. No corpo, nos subterrâneos da carne, o infinito. Lobo na selva, ventoso, alargado e mágico, nas areias nuas do Rio Jaguaribe. Eu, menino dos aquíferos, feroz, na roda da fogueira, na distante noite da imortalidade. Padim: é você? Quis saber. Alguém sorriu e murmurou no tempo: “Assim é a vida: incerta e perigosa!” 

João Scortecci


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DOENÇA DE UMA SOCIEDADE DOENTE

Quem me apresentou ao filósofo e escritor indiano Jiddu Krishnamurti (1895 – 1986) foi o escritor inglês, Aldous Huxley, autor do livro “Admirável Mundo Novo”, romance distópico que marcou de sonhos a minha juventude. Li e reli a obra uma dezena de vezes. Talvez até mais! “Admirável Mundo Novo” foi livro de cabeceira durante anos, até o dia que sumiu. Escafedeu-se! Desconfio que tenha sido roubado. Até outro dia, desconhecia que havia sido Aldous Huxley o prefaciador da obra “A Primeira e Última Liberdade (1954)” do indiano Jiddu. Intimidade? Talvez. Jiddu – homenagem a Sri Krishna, uma das divindades mais importantes e veneradas do hinduísmo – é nome fácil de guardar na cabeça, apenas isso. Comprei o livro do filósofo Jiddu pelo correio. Entrega rápida! Deve chegar logo, creio. Uma frase filosófica do poeta Jiddu: “Não é sinal de boa saúde estar bem adaptado a uma sociedade profundamente doente”. Anotei. A expressão “sociedade doente” é o pesadelo do momento, descreve o estado atual de desgaste mental, emocional e social da humanidade. Ninguém mais se entende! Lendo sobre Jiddu na Internet: “A sociedade é uma abstração. Abstração não é realidade. Realidade é relação. A relação entre seres humanos criou o que chamamos de sociedade”. Que engodo! Interessante. Pretendo escrever sobre “A doença de uma sociedade doente”. Talvez um novo livro de poesias, algo assim. O livro “A Primeira e Última Liberdade”, do poeta Jiddu, ainda não chegou. Que demora! Passei na portaria do prédio e perguntei para o zelador: “Chegou alguma coisa pra mim?”. Não! Eu já sabia. Subi de volta para o 4º andar – onde moro – pela escadaria do prédio. Jiddu – ele mesmo – me aguardava parado na porta do elevador de serviço. Perguntou-me: “João, você já olhou para uma árvore sem uma única palavra de gosto ou desgosto, sem uma única imagem?”. Talvez, respondi. Jiddu sorriu. Disse-me: “Quando o livro chegar, comece lendo sobre o “Esvaziamento da consciência””. Anotei. Jiddu, então, entrou no elevador e escafedeu-se. Estranho! Notei que carregava consigo um exemplar do livro “Admirável Mundo Novo”, do Aldous Huxley. “Ladrão!”, gritei. Desci aos pulos pela escadaria do prédio. Não o encontrei mais. Filósofo safado! Protestei. “Sr. João, chegou a sua encomenda!”. Era o zelador do prédio, feliz e prestativo. Entregou-me o pacote e, junto, um bilhete, sem assinatura e data. Provavelmente do filósofo Jiddu, o ladrão! Estava escrito no bilhete: “Todo o seu conteúdo é ter total movimento de percepção e ação!”. Guardei o bilhete e abri a encomenda: um exemplar do livro “A Primeira e Última Liberdade, de Krishnamurti.” Estranho: tinha na página da folha de rosto uma dedicatória. “Para o impaciente e querido João Scortecci, do Jiddu.”. Saúde é estar bem adaptado a uma sociedade profundamente doente, algo assim.

João Scortecci

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NADICA DE NADA

Gosto de rádios. Para quem não sabe: sou um colecionador compulsivo! Ultimamente continuo apaixonado por radinhos com baterias recarregáveis, da marca Sansui. Tenho quatro deles – modelos diferentes, claro – e ainda aguardando a chegada de mais um. Listando as emissoras dos ouvidos: CBN, BandNews e Transamérica, hoje TCN. Hoje dia do voto. Lá fora chove desbragadamente. Pergunta: a chuva vai atrapalhar as eleições? Confesso: não sei! Não dormi direito. Dudu – meu cachorro com alma de caramelo – acordou-me chorando na porta do quarto, tremendo de medo da chuva. O jeito foi levá-lo para a poltrona da sala e acomodá-lo no colo. Faz parte! Liguei o radinho, o F-22, um dos meus preferidos, bem na hora que o escritor e são-carlense Deonísio da Silva, explicava a origem e o significado da palavra democracia. Interessante. Parte boa – melhor ainda – foi escutá-lo sobre o significado de “ostracismo”, ato de excluir, banir ou isolar um indivíduo de um grupo, comunidade ou atividade política. O que eu – penso que – entendi: evitar o surgimento de tiranos e conter figuras políticas cujo poder ou ambição “podem” ameaçar a liberdade pública ou a ordem democrática. Anotei. Mudei de estação. O Sansui modelo F-22 tem visor iluminado. Fácil trocar de estação. Não precisa acender a luz do quarto ou da sala. Simplicidade tecnológica, algo assim. Madrugada de sorte a minha: dei de ouvidos com o Pasquale, falando sobre uma expressão que até então não conhecia. “neca de pitibiriba”, que significa absolutamente nada, “nadica de nada” ou a ausência total de alguma coisa. “Neca” é nada. “Pitibiriba” é um termo lúdico, uma invenção popular de som rimado e jocoso para dar ênfase à palavra “neca”. A chuva – lá fora – aumentou. Dudu – aquele com alma de caramelo – continua agitado, de ouvidos na sorte. Fazer o quê? Resta esperar! Tempo para acomodá-lo carinhosamente no colo, cobri-lo com uma manta de lã, continuar na madrugada, pitibirando silêncios e vazios, no nadica do nada, na imensidão da sorte. Esperança? Talvez.

João Scortecci

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ACONTECEU MAIS OU MENOS ASSIM

Aconteceu mais ou menos assim. Só tive um patrão na vida. De 1977 até 1982, quando, então, abri a Scortecci Editora. Um dia, do nada, o meu patrão me chamou na sua sala e comeu-me o fígado. Juro: não me deixou nem respirar! Fui devorado vivo! Saí da sala da diretoria sem saber o motivo da bronca. Perguntei-lhe: “Patrão o que eu fiz?”. Ele não me respondeu. Antes de deixar a sala – assustado e tonto, com nó nas tripas – pude observar num calendário gigante que ficava atrás da sua mesa o meu nome “João” escrito com caneta piloto vermelha, na data do dia. Ferrei-me! Fui marcado e não sei o motivo. Meses depois – já tinha até esquecido da bronca – cometi, então, um erro grave no serviço. Uma cagada das grandes! Fui chamado novamente à sua sala, esperando pela demissão. Entrei, sentei e olhei o calendário. O meu nome estava lá, na data do dia, desta vez escrito com caneta piloto na cor azul. Meu patrão olhou-me nos olhos e – docemente – começou do nada a me elogiar. Endoidou, pensei. Falou das minhas qualidades, da minha inteligência e da eficiência no trabalho e do quanto eu era querido e importante por todos. Listou virtudes e predicados, que, até então, eu não sabia. Tudo isso? Prometeu-me, ainda, um aumento de salário e uma promoção. Pensei: o cara está “maluco de pedra” ou está de “sacanagem” comigo. Deixei a sala em silêncio, assustado e confuso da cabeça. No dia seguinte – fervendo por dentro – procurei-o. Estava decidido: isso não vai ficar assim! “Patrão, tenho perguntas. E muitas! Quero saber sobre o calendário com o meu nome na parede. E mais, uma explicação: um dia você me come o fígado, injustamente, sem motivo e no outro – depois de uma tremenda cagada que fiz – você me elogia e me promove na empresa. Exijo uma explicação!”. Bati forte. Ele me olhou, sorriu, virou-se para o calendário da parede e respondeu na maior calma do mundo: “A primeira bronca já estava programada: você merecendo ou não. Nada pessoal. Isso explica o seu nome escrito no calendário na cor vermelha. Quanto à promoção e os elogios também já estavam programados. Isso explica o seu nome no calendário na cor azul”. E tudo ficou por isso mesmo. Quando pedi as contas e deixei a empresa em março de 1982 para, então, montar a Scortecci Editora, ele me disse carinhosamente: “Não dando certo o seu novo empreendimento você pode voltar, o seu lugar vai estar aqui, reservado”. Anotei. E tudo ficou por isso mesmo.

João Scortecci

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PAPAI SABE TUDO E O DR. GOOGLE

Sou doido, mas não sou louco! No máximo, um ogro enlouquecido, perdido, talvez. Pesquisa feita pelo Instituto Britânico Birmingham Science City: “Crianças preferem o Dr. Google aos pais para tirar dúvidas!” Até aí, nenhuma surpresa. Eu já desconfiava! O Dr. Google substituiu com propriedades as enciclopédias: Barsa, Britânica e Outras. O que assusta na pesquisa do Instituto Britânico é que 34% das crianças do mundo não acreditam que seus pais sejam capazes de ajudá-las a fazer o dever de casa e 14% não acham seus pais inteligentes. Confesso, sem remorso: não fui capaz de ajudar – suficientemente – meus filhos quando crianças com a lição de casa. Motivo maior: impaciência masculina! Ocupei-me - deveras – com contação de histórias e causos “mirabolantes” que escutei na infância do meu pai Luiz Gonzaga e do meu avô João Batista, o Batista da Light. Eram imperdíveis! Tentei fazer igual até o dia que minha filha Patrícia – esperta que só ela – disse-me: “Pai, você está inventando!”. Então, desisti, de vez. Hoje, tento fazer o mesmo – contar histórias – para os meus netos, sem sucesso. Digo sempre: sou doido, mas não sou louco! Perco de goleada para o Discovery e a IA. Nas festinhas de família canto parabéns, tiro fotos com o celular e devoro brigadeiros de chocolate. E nada mais! De volta à pesquisa: Fiquei cabreiro – mesmo – com o tal dos 14% que não acham seus pais inteligentes. Não ouso perguntar-lhes. Já disse: sou doido, mas não sou louco! Aqui cabe o que mamãe Nilce dizia sempre: “Santo de casa não faz milagre!”. E pensar que a pesquisa do Instituto Britânico Birmingham Science City é do ano de 2012. Doideira, né? Procurei na IA uma atualização da tal pesquisa. Encontrei uma do ano de 2023: “Um estudo do instituto britânico Birmingham Science City revelou que 54% das crianças de 6 a 15 anos preferem usar o Dr. Google para tirar dúvidas em vez de perguntar algo aos pais. Apenas 26% recorrem aos pais em primeiro lugar, enquanto só 3% buscam os professores.”. Sobre a foto do post: “Papai Sabe Tudo” (Father Knows Best), foi um seriado de televisão estadunidense de muito sucesso nos anos 1950. No Brasil, foi transmitido na década de 1960, pela TV Tupi, estrelada pelo ator Robert Young, no papel de Jim Anderson, um pai simpático e sabichão de uma família “feliz”. Conclusão: não somos infelizes, creio. Fica o dito pelo não dito: “Santo de Casa não faz milagre”. Segundo a IA a expressão vem dos Evangelhos de Marcos 6:4 e Lucas 4:24, quando Jesus retorna a Nazaré e é rejeitado por conterrâneos que o viam apenas como “o filho do carpinteiro”.

João Scortecci

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MATA HARI, A ESPIÃ DUPLA H-21

No olho do dia! E na ordem do sol. Mata Hari: uma mulher da vida? Sim, mas traidora, jamais! Foi assim que fiquei conhecendo a história da espiã e dançarina Mata Hari. Na minha infância – lá no Ceará dos anos 1960 – era uma marca de cigarro barato, sem filtro, vendido a granel. Fumávamos no paredão do Colégio Cearense ou na Praça da Igreja do Coração de Jesus. Mata Hari estourava os pulmões! Lá, no breu do paredão, namorávamos as moças e os amores sem nome. A Mata Hari – original – símbolo da ousadia feminina, chamava-se Margaretha Gertruida Zelle (1876 – 1917), uma dançarina exótica, dos Países Baixos, que, durante a Primeira Guerra Mundial, foi acusada de espionagem e condenada à morte por fuzilamento. Sua biografia é misteriosa, cheia de tramas, mistérios, amores e aventuras sexuais. Aos 16 anos de idade, foi expulsa da escola, depois de ter sido acusada de seduzir e se envolver com um diretor do estabelecimento. Em 1895, com 19 anos de idade, casou-se com o capitão Rudolf MacLeod (1856 – 1928), vinte anos mais velho que ela. O casal, durante alguns anos, morou na ilha de Java, principal ilha da Indonésia, para onde MacLeod, militar que era, havia sido enviado, e lá tiveram dois filhos. Foi em Java que Margaretha aprendeu danças folclóricas balinesas e técnicas sexuais orientais, que lhe proporcionaram – anos mais tarde – fama como cortesã de luxo. Em 1902, de volta à Europa, o casal se separou, e Margaretha foi acusada pelo marido de ter levado uma vida libertina na ilha. Em Paris, a partir de 1905, ela estreou na noite, com shows de dança e striptease. Mata Hari usava véus translúcidos e, com sua dança exótica, mexia com a imaginação dos homens. Teve romances secretos com oficiais militares, políticos e empresários da época. Em 1914 – durante sua turnê em Berlim – eclodiu a Primeira Guerra Mundial. Ela era, na época, amante de Eugen Kraemer (Ernest Eugene Kramer, 1889 – 1958), chefe da Inteligência alemã, que a recrutou como espiã, tornando-se a agente H-21, na Europa. De volta a Paris, conheceu o capitão Georges Ladoux, oficial da contraespionagem francesa, tornando-se agente dupla, passando a vender informações secretas para os dois lados da guerra. Em 13 de fevereiro de 1917, foi presa pelas autoridades francesas, em seu quarto no hotel Elysèe Palace, em Paris. Antes de ser levada presa, pediu que lhe dessem tempo para tomar banho e mudar de roupa. Depois de alguns minutos, saiu do quarto, nua e, oferecendo chocolates a seus captores em um capacete prussiano. O estratagema de tentar escapar, não funcionou. Foi acusada de espionagem, de ser uma agente dupla e de ter sido a causa da morte de milhares de soldados. Foi executada por um pelotão de fuzilamento, em 15 de outubro de 1917, aos 41 anos de idade. A lenda sustenta que o esquadrão de fuzilamento teve de usar vendas nos olhos para evitar que os soldados sucumbissem ao seu charme. No entanto, os fatos comprovados são que ela se recusou a ter os olhos enfaixados e, antes de ser alvejada, lançou um beijo de despedida aos 12 soldados da guarda. Apenas quatro tiros a atingiram: dois em suas pernas e dois em seu peito, um deles atingindo o coração, causando sua morte instantânea. Seu corpo foi dissecado e usado para as aulas de anatomia – prática comum com os executados na época. Sua cabeça foi embalsamada e permaneceu no Museu de Criminosos da França até 1958, ano em que misteriosamente desapareceu. Historiadores afirmam que sua cabeça pode ter sido roubada por algum admirador ou colecionador, sem nunca ter sido recuperada. Dizem que, vez por outra, Mata Hari aparece completamente nua, nos stripteases das noites parisienses, no corpo sensual de uma dançarina balinesa, alvejando de beijos os homens da noite. O olhar de Mata Hari até hoje continua mortal!

João Scortecci

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DENÉBOLA E O CÉU DE LEÃO

Quando criança – de cabeça que voa –, acreditava em tudo! Nasci sob o signo de Leão, uma quinta-feira, às 4h30 da manhã. Lembro-me do dia em que avistei, pela primeira vez, a estrela Denébola. Céu limpo, sonhos de menino e imensidão. Perguntei: “É aquela ali?”. Mamãe Nilce respondeu, balançando a cabeça: “Aquela com rabo de felino!”. Protestei: “Não vejo nada!” Mamãe Nilce, então, pacientemente, provocou-me: “João, imagina primeiro o leão, depois, o rabo da fera iluminando o universo!”. Foi o que fiz. Um leão de luz, imenso, apareceu do nada, no meu céu. “Estou vendo!” – gritei – “É Denébola!” Longe, radiante, eterna, distância 35,9 a 36 anos-luz da terra. Mamãe Nilce, explicou: “Está vendo aquela outra estrela de brilho maior, ao lado?”. “Estou”, respondi. “Aquela é Regulus, uma estrela Alfa! É o coração do leão. Estrela gigante, poderosa, de cor azulada, que bate velozmente.” Sentamo-nos, então, corpo e alma, nas areias úmidas do mar do Ceará. Mãe e filho: plenos, sem pressa. Explicou-me, o que sabia: “São quatro estrelas irmãs. Formam os dentes do Leão!”. Não duvidei. Mamãe Nilce parecia feliz. Lá ficamos: imortais em tudo! Depois do clarão da noite – olhos miúdos – foi difícil dormir! Cabeça que voa. Sonhei que estava na boca de um buraco negro, no dorso de um leão, viajando leve, incerto, sem direção. Sinto saudade de Denébola, de Regulus, dos dentes de leão. Aqui onde moro – cidade grande, cosmopolita – o céu é um engodo, uma cegueira dos infernos. Pergunto-me: “Denébola: cadê você?”. Silêncio. Morremos, então. Eu e mamãe Nilce. Quando criança, acreditávamos em tudo!

João Scortecci

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"GATINHA" E O POETA EDGARD ALLAN POE

Todo gato doméstico tem um nome. A minha doce e sensível gata – uma ex-moradora de rua – chamava-se simplesmente “Gatinha”. Acho que gostava do nome: nunca reclamou! Era mãe do Preto Garbo, um gato grande, branco e preto, que quando saía para namorar voltava todo arrebentado. Um dia não voltou. Gatinha ficou. Foi colaboradora da editora durante muitos anos. Era manhosa e esperta. Independente: assim são os felinos! Existem cerca de 250 raças de gato-doméstico. São predadores de diversos animais, como roedores, pássaros, lagartixas e insetos. Vez por outra, Gatinha trazia de presente um pássaro morto ou uma lagartixa. Jogava a caça em cima da minha mesa de trabalho e cobrava carinho e atenção. Gatinha não aceitava desaforos. Quando ignorada, subia na minha mesa de trabalho e com a ponta do rabo jogava a papelada no chão. Segundo pesquisas, os gatos são o segundo animal de estimação mais popular do mundo, depois – numericamente – dos peixes de aquário. Isso eu não sabia. Sempre pensei que fossem os cachorros. A chegada de um filhote de rato na editora, batizado de Edgar Allan Poe, mudou tudo. O sossego acabou. Gatinha perseguiu o camundongo e o pegou enfiado no ralo do banheiro. Levou-o até a minha sala e o soltou encurralado num canto. Gatinha parecia feliz, realizada. Olhou-me e sorriu. Sorriso maroto, inesquecível. Gatinha cheirou Poe, sentou-se, cruzou as patas da frente e enamorou-se pelo poeta e seus encantos. A editora inteira olhando, admirando a trama poética. Poe balançou a cabeça, para cima e para baixo, para os lados e, docemente, aninhou-se de amor nas patas da Gatinha. Desarmei a ratoeira – a pedido da Gatinha – e montei na lavanderia dos fundos um quarto de dormir para o casal. Poe, depois de alguns meses, gordo e feliz, sumiu. Penso ter visto numa noite escura e sombria, enquanto eu escrevia, um corvo no muro do quintal. Desconfio que Edgar Allan Poe foi levado deste mundo. Gatinha – entristecida – nunca mais foi a mesma. Viveu, ainda, mais alguns meses. Morreu velhinha e letrada. Só isso e nada mais!

João Scortecci 

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"LACERDINHA" E OS POLÍTICOS DE ÉPOCA

No começo dos anos 1960, a “lacerdinha”, um insetozinho asiático, minúsculo, de cor negra, se tornou uma praga nacional. Uma peste! O sugestivo apelido era em referência ao jornalista, escritor, editor e político carioca Carlos Lacerda (Carlos Frederico Werneck de Lacerda, 1914 - 1977), famoso por sua radical e raivosa oposição aos presidentes Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek. Um pentelho! Na Fortaleza daquela época água de beber chegava às casas de carroça-pipa, puxada por jegue. O carroceiro colocava o “burro na sombra” e lá ficava no silêncio do pé de fícus-benjamim - no melhor da Avenida D. Manuel, quase esquina com a Av. Duque de Caxias. Mamãe Nilce comprava, semanalmente, três latões de água com 20 litros cada. Recomendava, sempre: “Cuidado com as lacerdinhas na água!" Os galões enchiam um imenso pote de barro, que dormia do lado de fora da casa, na porta da cozinha. Água “boa” de beber, da adutora do Acarape, só chegou à cidade no inicio dos anos 1970. A água com lacerdinha era filtrada e depois fervida. O problema não eram as lacerdinhas: “o que não mata engorda!” Ditado popular da época de criança. O problema era um gato-dourado de nome Charles Boyer (homenagem ao ator e cantor francês), de propriedade do meu irmão Luiz, que do alto do muro do vizinho, urinava dentro do pote. O pior: ninguém conseguia pegar o safado do gato. Com o tempo ficou assim: água com urina! Na biblioteca da casa, mamãe Nilce lia e acompanhava o reboliço político da época. Papai Luiz, do canto da porta, provocava: “Nilce, esse Lacerda é mesmo uma praga!”. Risos. Tudo para o meu pai Luiz era motivo de piada. Carlos Lacerda em 1968 foi cassado e preso pelo regime militar. Foi solto uma semana depois, após uma greve de fome. Lacerda nos últimos anos de vida dedicou-se ao jornalismo e a direção da editora Nova Fronteira, que fundou em 1965. Em 2006 o controle acionário da casa editorial foi adquirido pelo grupo Ediouro Publicações. Lacerda faleceu no ano de 1977, aos 63 anos de idade, vítima de um infarto cardíaco. Quanto ao gato Charles Boyer, loiro e cotó, ainda dorme majestoso nos galhos do pé de fícus, no melhor da hora, de olho na chegada da carroça-pipa, na espera do espelho de macho, no reflexo das águas do pote de barro. Reencontros de hoje: O escritor Mário Magalhães - não o conheço - escreveu "Lacerda - Coração de Tempestade" (Companhia das Letras, 2026). Comprar e ler? Hora de reencontar o gato Charles Boyer, a biblioteca de mamãe Nilce, as piadas maravilhosas de papai Luiz e até, quem sabe, reencontrar as lacerdinhas do pé de fícus-benjamim do tempo. 

João Scortecci

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Futebol e Literatura: O impacto de Scarpa, Abel e Roger Machado no incentivo à leitura!

O jogador de futebol Gustavo Scarpa tornou-se um dos principais nomes do momento quando o assunto é o incentivo à leitura. Sua atuação traz esperança em um cenário desafiador para o mercado editorial, atualmente pressionado pelas práticas de descontos agressivos da gigante Amazon, que dificultam a sobrevivência das livrarias. Em meio a esse impasse econômico, onde o consumidor naturalmente prioriza o menor preço, Scarpa encontrou um caminho para aproximar as pessoas dos livros. Hoje no Atlético Mineiro, o atleta compartilha em suas redes sociais reflexões e dicas de obras que discutem vida, morte, preconceito e comportamento humano. Junto com a torcida do "Galo", ele idealizou o projeto Galeitura, um movimento que rapidamente ganhou milhares de apoiadores focados em estimular o hábito de ler. Exemplos não faltam. Roger Machado, o treinador é o mecenas do Projeto Canela Preta, criado em 2020, durante sua passagem pelo time do Bahia. Em parceria com a Hucitec Editora financia a publicação de 50 livros de autores negros e indígenas, abordando racismo, poesia e cultura afro-brasileira. Abel Ferreira, técnico de futebol do Palmeiras, autores de livros sobre futebol, é um grande incentivador da leitura e embaixador da Rede Nacional de Bibliotecas Comunitárias (RNBC), que democratiza o acesso aos livros em periferias e comunidades vulneráveis. O reflexo disso aparece no próprio Palmeiras que, em 2026, inaugurou espaços de leitura em sua Academia de Futebol para as categorias de base, limitando o uso de celulares. Iniciativas corporativas também somam forças a esse movimento. O projeto Livros para Todos, do Grupo Editorial Scortecci — em parceria com a Abigraf e a IBÁ —, atua na criação e expansão de bibliotecas públicas e comunitárias. O grupo também assina a campanha “CirculeUmLivro”, que fomenta a leitura e a economia circular por meio da troca de obras. Em entrevista recente, Gustavo Scarpa destacou o desejo de ver esse impacto multiplicado: "Que outros clubes de futebol façam o mesmo, seguindo os exemplos do Atlético Mineiro e do Palmeiras". Ele ainda revelou que muitos atletas têm o hábito de ler, mas não compartilham o gosto nas redes sociais por receio. Estranho. Receio significa um sentimento de medo moderado, apreensão ou incerteza em relação a um resultado, consequência ou situação futura. A famosa frase "A bola pune" é um bordão clássico eternizado pelo técnico de futebol Muricy Ramalho. "A burrice pune!" O ditado resume a ideia de que o futebol não perdoa quem perde muitas chances ou vacila na vida. Algo assim.

João Scortecci 


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CLARICE LISPECTOR, CHATÔ E O ATENTADO CONTRA A REVISTA PAN

O empresário Assis Chateaubriand foi uma das figuras mais controversas da nossa história — temido, acusado de chantagem e focado em construir seu império a qualquer custo. Entre as tantas vidas impactadas por seus métodos, está a do meu avô materno, José Scortecci, editor da Revista PAN. Lançada na década de 1930, a PAN era um semanário de cultura mundial de vanguarda. Ela trazia análises da Segunda Guerra Mundial e abria espaço para novos talentos, incluindo Clarice Lispector, que estreou na literatura em suas páginas com o conto Triunfo, em maio de 1940. O sucesso da revista incomodou profundamente Chatô, o "Cidadão Kane brasileiro". Em 24 de setembro de 1936, a mando de Chateaubriand, as oficinas da gráfica que imprimia a PAN sofreram um incêndio criminoso que destruiu seu maquinário moderno. Como era comum na época, o poder de Chatô abafou o caso. Mesmo assim, a PAN resistiu e circulou até 1945. Hoje, a coleção completa dessa joia da nossa imprensa — que adquiri de um colecionador — está preservada no memorial da Scortecci Editora.

João Scortecci


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QUEM ANDA BALANÇA OS BRAÇOS

Lendo sobre o assunto: “O movimento dos braços contrabalança o balanço das pernas, impedindo que o corpo gire ou perca a estabilidade a cada passo. Andar balançando os braços de forma oposta às pernas gasta aproximadamente 12% menos energia do que caminhar com os braços grudados ou parados ao corpo.” A Inteligência Artificial, então, perguntou: “Gostaria de saber mais sobre a biomecânica da caminhada?”. “Sim”, respondi. Numa feira de robótica no interior de São Paulo, isso no ano de 2015, conversando com um engenheiro robótico, ele me disse: “Os humanos, quando andam, se equilibram balançando os braços, já os robôs, não; andam com os braços colados ao corpo!”. Anotei. De lá para cá tudo mudou: os robôs hoje fazem de tudo e quando andam também balançam os braços! Na física e na biomecânica, a caminhada é descrita como um pêndulo invertido. A cada passo, o corpo se move sobre a perna de apoio, que atua como uma haste rígida. O centro de gravidade do corpo sobe e desce em uma trajetória ondulatória. Essa mecânica permite uma troca contínua entre energia cinética (movimento) e energia potencial gravitacional (altura). Graças a esse design biológico, a caminhada humana é um dos métodos de locomoção mais eficientes da natureza, reaproveitando grande parte da energia gasta a cada passo. Na Netflix, num filme B, confuso, ruim de tudo, sobre Inteligência Artificial, a história – sem pé e sem cabeça – se passa no ano de 2063, quando robôs rebeldes dominaram o mundo e destroem Los Angeles, matando milhões de pessoas. Na trama, os humanos andavam balançando os braços economizando 12% de energia e os robôs, não; andavam com os braços colados ao corpo. No final do filme, os robôs eram os mocinhos – reviravolta completa – e só queriam viver em paz. Os humanos eram os verdadeiros bandidos. Acontece. Hoje vou caminhar no Parque das Perdizes – visitar a minha neta – e depois comer pastel de alho-poró e beber água de coco. Pretendo dar voltas no parque com os braços colados ao corpo e ver o que acontece. Aviso dado. Desconfio que me tornei um robô, um humanoide do pêndulo invertido, em um futuro não muito distante, algo assim.

João Scortecci


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REGRAS DE FUTEBOL DE RUA DOS ANOS 1960

Jogávamos bola na rua, descalços, na calçada da Av. D. Manoel, quase esquina com a Av. Duque de Caxias, na cidade de Fortaleza dos anos 1960. Os dois melhores jogadores da turma não podiam estar no mesmo time. Regra inegociável! Tirávamos par ou ímpar e escolhíamos alternadamente os times. Metade para cada lado! Os ruins de bola ficavam na defesa e os bons, no ataque: simples assim. Ser escolhido por último era uma grande humilhação. Os gordinhos e os canelas duras sofriam, mas jogavam! Ninguém sobrava ou ficava de fora. Um time jogava sem camisa e o outro com camisa. O pior de cada time virava goleiro, a não ser que tivesse alguém catador de bola. Se ninguém quisesse ser goleiro, adotava-se o rodízio: cada um do time agarra por um tempo, até alguém marcar um gol no adversário. Quando tinha um pênalti, saía o goleiro ruim e entrava o goleiro bom, só para tentar pegar a cobrança. As traves eram de sandálias havaianas ou com paralelepípedos. Gol pequeno, sem goleiro, ou gol grande, com goleiro. Os piores de cada time jogavam na defesa, não podiam avançar! O dono da bola jogava no mesmo time do craque. Não tinha juiz. As faltas eram marcadas no grito: se um jogador sofresse falta tinha que gritar: “Falta!”. Pegava a bola ligeirinho e batia a falta. Lesões, como arrancar a tampa do dedão do pé, ralar o joelho, sangrar o nariz e outras, eram do jogo. Quando alguém chutava a bola para longe, tinha que ir buscar. Lances polêmicos eram resolvidos no grito e na pressão, ou no braço. A partida acabava quando anoitecia, quando a bola furava ou quando a mãe do dono da bola mandava ele para casa tomar banho. Um detalhe insignificante: quando o dono da bola não obedecia ao chamado da mãe era comum ela aparecer de surpresa e levá-lo pela orelha. Fim de jogo.

João Scortecci

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FUZIS, FEIJÕES E FLATULÊNCIAS

“Sinédoque” é uma figura de linguagem – a palavra vem do grego e significa “compreender várias coisas conjuntamente”. É um tipo especial de “metonímia”. Caracteriza-se pela substituição de um termo por outro. Consiste na atribuição da parte pelo todo (“pars pro toto”), ou do todo pela parte (“totum pro parte”). Isso tudo – ou quase nada – para tentar entender, ou desenhar, quem sabe, o perfil de uma relação-sinédoque entre um fuzil – pedra que produz fogo – e um feijão – semente que alimenta e alegra a barriga dos brasis com proteínas, ferro, cálcio, vitaminas, carboidratos e fibras. Aqui – em dia de incertezas – descubro “conjuntamente” a relação-sinédoque entre fuzis e feijões. Leio, também, sobre flatulências, gases, puns, traques e sobre armas automáticas, modelo 762, de 20 tiros, que custam, aproximadamente, 12 mil reais, em lojas da Internet, o equivalente a 1.600 quilos de feijão. Comparação estúpida! Minha “pederneira” fartou-se de gases! Feito isso, iniciei, de pronto, outra leitura qualquer, numa sequência no modo “totum pro parte”. Na página seguinte, no rodapé das ideias, encontrei mais outra sinédoque. Coincidência? Li sobre o rastilho de nitrato de potássio, enxofre e carvão que assola o País. Na fábula “João e o pé de feijão” o menino sonhador troca uma vaca – a única da família – por um punhado de feijões mágicos. A mãe de João, enfurecida, joga os feijões pela janela. Os feijões brotam num gigante pé de feijão, que sobe até o céu. João, então, escala o feijoeiro e, lá no alto, encontra um castelo, lugar habitado por um gigante cruel, que se alimenta do povo e da miséria humana. A história continua, cheia de aventuras, até o dia em que João – fugindo do gigante que o persegue – pega um machado e corta o pé de feijão. Moral da história: estou tentando compreender várias coisas ao mesmo tempo! Acordei pilhado e com flatulências na alma. “Totum pro parte”!

João Scortecci

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A HISTÓRIA DO AERO WILLYS DE MATAR DO CORAÇÃO!

Não sei o que é pior: morrer do coração ou matar alguém do coração. Morre-se! No ano de 1971, pegar um táxi na cidade de Fortaleza era o máximo: um luxo! Fazíamos tudo a pé ou de pick-up “Rural”. Naquele dia estava com a mesada no bolso e precisava chegar ao IBEU – Instituto Brasil-Estados Unidos, num piscar de olhos. Tinha exame de inglês e estava atrasado. Do portão de casa avistei um táxi branco, um Aero Willys, novinho em folha, dando sopa do farol da esquina. Não tive dúvidas: corri – e num pulo só – entrei no banco de trás do táxi. Gritei – apressado – para o condutor do “carrão”, um senhor de idade, gordo, cabelos brancos e óculos fundo de garrafa: “Toca urgente para o IBEU!”. Não satisfeito, cutuquei suas costas com o dedo indicador. O senhor, assustado, levantou os dois braços e apagou. Caiu desmaiado, em cima do volante do Aero Willys, disparando a buzina. Fiquei ali, parado, inerte, apavorado. Morreu do coração? Pensei. Um casal que passava, viu a cena, aproximou-se da janela do carro – aberta, o calor era infernal – e me perguntou: “O que aconteceu com o homem?”. “Desmaiou, acho”, respondi. Juntou gente. E até um tetél, carro de Rádio Patrulha. Tiraram o senhor do carro e o colocaram sentado, num tamborete de madeira, no portão da casa vizinha, da Família Biasoli. Estava consciente – transpirava feito um porco – e depois de alguns minutos acordou, de vez. Respirei fundo: graças a Deus! O homem me olhou nos olhos e perguntou: “Foi você?”. “Sim!”, confirmei, balançando a cabeça. “Eu não sou táxi!”, justificou-se, apontando o dedo para o teto do Aero Willys, abandonado, de portas abertas, no meio da avenida D. Manoel, esquina com Avenida Duque de Caxias. “Você entrou no carro errado!”, resmungou. Sem saber o que responder, disse-lhe: “E eu não sou assaltante!”. Catei a minha pasta do IBEU e voltei para casa. Até hoje, depois de mais de 50 anos, quando entro num táxi, pergunto: “Táxi?”. Detalhes supersticiosos: nunca mais na vida andei de Aero Willys branco e desisti de vez do curso de Inglês. Acontece.

João Scortecci

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JUDAS E A MALHAÇÃO DO HOMEM BOMBA

Papai Luiz acendia o pavio com o cigarro da boca do Judas e gritava: “Corram que o papoco vai ser grande!” Corríamos todos: até o tronco da imensa amendoeira-da-praia. Lá – no dorso mágico do chapéu-de-sol, estávamos seguros. E o Judas, o Iscariotes, voava aos pedaços: papocava! Papai Luiz e meu tio Mário Capelo eram os responsáveis pelo fogaréu. Bombas rasga-lata na cabeça, na barriga, nos braços, nas pernas e nas calças do Judas. O pavio do estopim ficava na boca, na língua escarlate do Judas. Bastava acender o cigarro Continental sem filtro e esperar queimar até o cotoco. Mamãe Nilce e tia Lenira cuidavam do Judas: enchimentos, maquiagem, roupas, chapéu e sapatos. E nós: da gritaria! A “Malhação de Judas” é uma tradição popular, trazida pelos colonizadores espanhóis e portugueses, que acontece nos sábados de Aleluia. Resume-se em surrar – com pau de vassoura e bambu – e depois atear fogo, pendurado num poste ou num pau de sebo, um boneco, que representa a figura do Judas Iscariotes, traidor de Jesus, conforme narrado nos Evangelhos do Novo Testamento. Com o tempo, além de Judas Iscariotes, a malhação passou a contemplar também políticos mentirosos, traidores, enganadores do povo. Na infância, gostávamos da farra, do fogaréu, quase sempre na “Casa da Floresta” dos meus tios Mário Capelo e Lenira, no Ceará dos anos 1960. Antes de detoná-lo aos céus, rezávamos pela sua alma pecadora, tirávamos fotos, servíamos café, tapioca e bolo de milho. Parte do ritual de morte! E ele, Judas, indiferente, aguardava, passivamente, o trágico destino. 

João Scortecci

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